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Nada é por acaso

Coincidência pouca

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Autor/Imagem:
Plínio Pavão - Foto Francisco Filipino

Alípio acordou feliz da vida naquele dia. O dia mais importante do ano para ele. Claro, era seu aniversário. Nada como fazer aniversário em um belo domingo de sol e poder levar a família para almoçar e comemorar no seu restaurante predileto. Lá chegando, com a concordância de todos, pediu seu prato preferido, filé à parmegiana, acompanhado de um Primitivo di Manduria, como a ocasião pedia.

Ao término, plenamente satisfeitos com a refeição especial, pediram a sobremesa, não sem antes consumirem mais uma garrafa da bebida do deus Baco e erguerem mais um brinde ao personagem central do dia. Depois café e Amaretto para todos. Em seguida a conta foi solicitada.

Ǫuando a conta chegou, o aniversariante conferiu e, achando correta, entregou o cartão de crédito ao garçom para quitar a despesa, que na sequência se dirigiu à mesa ao lado, em que um outro rapaz com sua família almoçava e apresentou a respectiva conta. O cliente fez exatamente o mesmo procedimento, conferiu a conta e entregou o cartão.

Antes de prosseguir é preciso fazer uma observação para que os mais jovens possam compreender precisamente o desenrolar dos acontecimentos. Essa história se passa nos imemoriais anos 1980. Naquela época a tecnologia das maquininhas eletrônicas ainda não havia sido desenvolvida e o processo de pagamento com cartões de crédito era feito manualmente, diferentemente de como ocorre nos dias de hoje, em que o atendente leva o equipamento até a mesa do cliente para realizar a operação “in loco”, com muito mais segurança.

Naquele tempo, qualquer que fosse o estabelecimento comercial, o cliente entregava o cartão ao atendente que o levava até o caixa ou o entregava diretamente ao funcionário do caixa, para o pagamento ser “processado”. A máquina era composta de uma base rígida com as dimensões do cartão que era encaixado nela com os dados – número, nome do titular, data de validade – impressos em alto relevo, voltados para cima. Sobre o cartão era colocado um boleto carbonado em duas vias, onde corria um pequeno rolo de borracha. Esse processo fazia com que os dados ficassem gravados no boleto.

De posse do boleto gravado, o garçom, no caso, retornava à mesa dos comensais e o apresentava ao titular para que assinasse no campo próprio. A via original ficava em posse do estabelecimento para ser encaminhada ao banco, para proceder o crédito do valor, a segunda era entregue ao cliente para fins de controle de seus gastos.

Feita essa descrição imprescindível para o bom entendimento do enredo, voltemos a ele; e é aí que as coisas começam a ficar intrigantes. Alípio, sem atentar para o documento trazido à mesa, apôs mecanicamente sua assinatura e da mesma forma o atendente lhe devolveu o cartão. Somente então ele notou a confusão: a cor não correspondia à do seu cartão, mas percebeu que o primeiro nome do titular era igual ao seu. O garçom havia trocado o documento com o cliente da mesa ao lado, mas, coincidência das coincidências, ambos tinham o mesmo primeiro nome e, convenhamos, nome nada comum: Alípio.

Esclarecido o fato, nosso herói, expansivo como era, quis compartilhar com seu xará a casualidade, além do mais, interessado na obra do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, logo percebeu que estava diante de um caso típico do fenômeno de sincronicidade; e dirigiu-se até seu homônimo, também muito comunicativo e receptivo.

A conversa se estendeu e, após alguns minutos, surgem outras descobertas ainda mais impressionantes: a identidade entre os “Alípios” se estendia para além do nome, pois o outro também tinha ido àquele restaurante com a família para comemorar seu aniversário de 35 anos, mesma idade do primeiro Alípio, o do início da história.

O funcionário do restaurante, que acompanhava todo o desenrolar daquela fábula inacreditável, não se conteve e puxou um “parabéns a você” com direito a pique-pique e todos os demais presentes na casa totalmente lotada cantaram juntos, sem nem desconfiar do que se passava com aquele pequeno aglomerado de pessoas num dos cantos da casa.

Talvez o leitor não tenha se dado conta de que além das equivalências explicitamente citadas até aqui, ainda é de se notar que um dos personagens poderia ter escolhido outro restaurante para festejar o fato de estar completando mais um ano de vida, ou, talvez, ter escolhido um outro horário, por exemplo, o do jantar, ou mesmo o pagamento da conta não ter sido feito no mesmo momento, talvez os fregueses tivessem se sentado com as respectivas famílias em cantos diferentes e serem atendidos por profissionais diferentes, ou ainda o funcionário não ter feito a confusão entre os cartões; na ocorrência de qualquer uma dessas hipóteses, o fato não teria sido percebido e ninguém teria tido conhecimento de todas essas incríveis concomitâncias.

No final da história, resta uma pergunta: será que apenas a estatística explica esse tipo de situação ou isso estaria mais no campo da psicologia ou até mesmo do sobrenatural?

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