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Caça ao voto

Começa horário de políticos cacarejarem sem botar ovo

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Autor/Imagem:
Mathuzalém Júnior - Foto de Arquivo

A exatos 38 dias das eleições gerais deste ano, chegou a horar de lacrar as janelas, os olhos e os ouvidos. Está aberta a temporada de caça ao voto. É quando a atividade política deixa os palácios e, mesmo a contragosto, chega às favelas e as ruas esquecidas pelas excelências. Reflexões à parte, a partir desta sexta (28), os 213,2 milhões de brasileiros terão de conviver com o horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão. Mais parecido com um período de alta produção de memes eletrônicos ou de espetáculos de circos mambembes, os tradicionais, chatos e irritantes programas da hora do almoço e do jantar são usados para reconhecermos aqueles poderão nos representar a partir de 1º. de janeiro de 2017 no Palácio do Planalto, no Congresso Nacional e nas assembleias estaduais e distritais.

Taí uma coisa que deveria ser muito bem paga. Como é de graça, que pelo menos os 160 milhões de eleitores consigam checar a ficha ou a folha corrida dos candidatos. Enquanto não cobram, além dos perdigotos em série, nós, os desavisados eleitores, teremos de nos acostumar com futuras excelências calcificadas por grossas camadas de massa corrida na cara, comendo pastel de vento, beijando criancinhas carentes e apertando a mão de idosos. É a época da campanha em que, no lugar dos bem-feitos editoriais de César Tralli, das receitas de Ana Maria Braga e do boa noite de Renata Vasconcelos, vamos aprender a conjugar os verbos fazer, prometer confirmar, priorizar, focar, agendar, jurar, comprometer e garantir em todos os tempos.

Como poucos candidatos têm recursos ou dom para a onipresença, é bom estarmos prontos para ver e ouvir políticos discursando ou pregando baboseiras de ou para igrejas católicas e evangélicas, templos budistas, mesquitas, sinagogas e até terreiros de macumba. Ou seja, não importa a minha ou a sua religião, pois até o dia 1º. de outubro, data do encerramento da chatice, convivermos diariamente com fakes e fórmulas mágicas para governança em tons de axé, amém, shalom, namastê, aleluia, hare krishna e saravá.

Na prática, o horário eleitoral é o único momento em que os velhos e novos postulantes a políticos ficam em cadeia nacional. Apesar de obrigatório, ele só é visto e ouvido por quem quer. Eu prefiro desligar a televisão ou sintonizar em um canal culinário ou tão pornográfico como o blá blá blá dos senhores e senhoras que se imaginam em um picadeiro ou, quem sabe, em um pool de humoristas sem graça. Quando não surge nada pior, uso o horário eleitoral como entretenimento. É a hora em que, mesmo sem vontade, dou gargalhadas com as gracinhas sem pé e sem cabeça dos loucos por um empreguinho público

Aliás, os caras e as caras prometendo trabalhar pelo povo lembram os servidores concursados. Durante o estágio probatório, eles entram e raramente saem da repartição. Passado o timing, não aparecem mais. Esse é o modus operandi dos políticos. Por isso, não tenho vergonha de afirmar que o horário reservado à propaganda eleitoral é um bolo recheado de hipocrisias e de falácias que os candidatos servem aos ingênuos. Ainda que não seja telespectador assíduo, eu me incluo entre os tontos, embora me exclua solenemente da tese rodriguiana de que a maior lição da vida é a de que, às vezes, até os tolos têm razão.

Obrigado a ouvir e ver a falação gratuita, me imagino protagonizando a história de que o coração tem imbecilidades que a estupidez desconhece. A imaginação tem a ver com minha eventual aceitação à chatice de indivíduos que têm mais interesse em nós do que nós neles. É bom que se diga que não tenho nada contra quem acredita em políticos. A sugestão é para sempre encontrá-los armado. Como dificilmente ouvirei alguém apresentar projetos ou falar de propostas, cada vez mais me convenço de que a principal diferença entre a galinha e o político no horário eleitoral gratuito é que o político cacareja e não bota o ovo.

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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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