Más lembranças
Como cachaça mata aos poucos, bebo por não ter pressa de morrer
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Quando eu era criança lá no subúrbio do Rio de Janeiro, morria de medo dos bêbados. O tempo passou, cresci, amadureci, mas não parei de beber. Graças a Deus, porque hoje tenho certeza de que não fazemos mal a ninguém. Pelo menos nunca fui daqueles bebuns chatos, inconvenientes, agressivos e desbocados. Às vezes, incomodava os amigos de copo jurando que era Deus. Pelas minhas contas, devo ter achado isso em umas cinco mil ocasiões. Talvez dez mil. Acho que provei isso ao dono do boteco no dia em que o levei à igreja católica localizada na mesma quadra da bodega.
Foi adentrar o recinto religioso e o padre a uma só voz me disse: “Meu Deus! Você aqui de novo!” Aliás, por mais que não acreditem, sempre fiz uso medicinal da mardita. Para curar uma paixão, bebia pinga com limão. Contra a falta de carinho, emburacava na cerveja, na cachaça e no vinho. Se alguém me fazia sofrer, bebia para esquecer. Quando havia necessidade de acalmar o coração, o jeito era beber até cair no chão. Naquele tempo, a vida não tinha graça. Por isso, enchia a cara de cachaça. Aos amigos sem sorte, costumava recomendar beber até a morte.
Não bebo mais, mas se alguém me pede um remédio para parar de sofrer, não há outra saída a não ser biritar. Não tenho boas lembranças da calibrina de dona Marina, a patroa do proprietário do boteco de minha preferência. Entretanto, jamais esqueci das barafundas em que me meti enquanto chutava o balde. Por exemplo, peguei birra de pastor evangélico por nada. Na verdade, somente porque ele dizia a verdade. Mamado, entrei no ônibus e fui me sentar justamente ao lado de um deles.
Com a melhor das intenções e com uma cara meio Taguatinga, meio Engenho de Dentro, o profeta de Deus me cutucou e, segurando minhas mãos, experimentou um embargo auricular sussurrante: “Meu filho, esse é o caminho para o inferno”. Com um único salto, cheguei à porta dianteira do buzão e informei ao motorista que havia subido no ônibus errado. Obviamente que não tenho como mensurar as besteiras decorrentes da cachaça. Acho que a pior delas foi no dia em que, após uma confusão generalizada defronte ao bordel de Jureminha, adentrei a delegacia do bairro. Me olhando de banda, de cara o delegado perguntou se eu era um dos baderneiros.
Jurei que não, mas que nunca perderia aquela boquinha. Afinal, a primeira coisa que os policiais disseram quando chegaram à casa privativa de saliência foi um verdadeiro mantra para a alma: “É cana pra todo mundo”. É claro que a pinga não resolve problemas. No entanto, foram os bêbados que me ensinaram que é a mardita que nos faz esquecer que eles existem. Sempre soube que a cachaça mata aos poucos, mas bebia porque nunca tive pressa de morrer. Mesmo informado pelos médicos e pela família que cachaça, cerveja, uísque e vodca são os piores inimigos do homem, vivi como homem macho, ou seja, nunca fugi dos inimigos.
O fato é que me cansei de misturar cachaça com raparigagem e futebol e acabar discutindo a tumultuada relação entre Lula da Silva, Jair Bolsonaro, Sérgio Moro, Silas Malafaia e Alexandre de Moraes. Meu último ato no adestramento de uma garrafa de aguardente ocorreu durante a caminhada pela metade do Sete Encruzilhada Nikolas Ferreira. A ordem do líder da maratona sobre caminhonete era deitar falação contra o feliz e vitorioso usuário da não menos famosa 51. Até aí tudo bem. Rachei de ódio quando percebi que a turma bebia Pitú Zero, isto é, sem álcool. Brincaram com coisa séria. O resultado é que o fim dos tempos foi anunciado com o raio que quase partiu meio mundo.
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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras