O Boicote das Américas
Como EUA e Brasil deram um nó na economia do Haiti
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Para entender a crise no Haiti, é preciso olhar além das imagens de satélite. O país carrega o fardo histórico de ser a primeira república negra do mundo, mas pagou um preço caríssimo por sua liberdade: uma “dívida de independência” imposta pela França em 1825, que drenou a economia nacional por mais de um século e impediu o desenvolvimento de infraestrutura básica.
Somado ao estrangulamento financeiro, o século XX foi marcado por intervenções externas e ditaduras brutais, como a da família Duvalier. Esse período de instabilidade política crônica corroeu as instituições democráticas, deixando o Estado vulnerável e incapaz de gerir recursos ou responder às necessidades da população, o que reflete hoje em um cenário onde a governabilidade é constantemente desafiada por gangues armadas.
A ascensão do Haiti como nação soberana enfrentou, desde o início, um boicote coordenado pelas potências escravocratas da época. Os Estados Unidos, temendo que o exemplo da revolução negra inspirasse revoltas em seu próprio território, impuseram um severo embargo comercial ao país entre 1806 e 1810. Esse isolamento diplomático e econômico cortou os laços da ilha com seu maior mercado regional, asfixiando a exportação de açúcar no berço da nova república.
O Brasil, então sob o regime imperial e dependente da mão de obra escravizada, também desempenhou um papel nesse isolamento. O fenômeno conhecido como “haitianismo” gerou um pavor nas elites brasileiras, que viam o Haiti como uma ameaça à ordem social. Diplomática e comercialmente, o Brasil evitou qualquer fomento à economia haitiana, contribuindo para o ostracismo internacional que impediu o reconhecimento do país por décadas.
Enquanto o Haiti era boicotado, o Brasil e outras nações americanas ocupavam o vácuo deixado pela produção haitiana no mercado mundial. Antes da revolução, a ilha era responsável por quase metade do açúcar consumido na Europa; com o boicote e a destruição da infraestrutura, a produção brasileira de açúcar floresceu, beneficiando-se diretamente da ruína econômica do vizinho caribenho, que nunca conseguiu retomar sua relevância produtiva.
A natureza também tem sido implacável. Localizado em uma rota crítica de furacões e sobre falhas geológicas ativas, o Haiti sofreu desastres devastadores, como o terremoto de 2010. A falta de planejamento urbano e o desmatamento severo — fruto da dependência histórica do carvão vegetal para energia — transformam fenômenos naturais em tragédias humanitárias recorrentes e cíclicas.
No campo econômico moderno, a ajuda humanitária internacional, embora vital, muitas vezes gerou um ciclo de dependência. A entrada massiva de produtos subsidiados, especialmente o arroz dos Estados Unidos a partir da década de 1990, desestruturou o setor agrícola local. Sem conseguir competir com os preços estrangeiros, milhares de camponeses abandonaram suas terras para viver nas periferias de Porto Príncipe.
Atualmente, o país enfrenta um isolamento logístico e comercial que mimetiza o boicote do passado, mas agora impulsionado internamente pela violência. O controle de gangues sobre portos e aeroportos impede a entrada de insumos básicos e afugenta o turismo, criando um efeito dominó que mantém a inflação em patamares insustentáveis e destrói o poder de compra da população.
A falta de investimentos em educação e tecnologia, consequência dos séculos de evasão de capital para o pagamento de dívidas externas, criou um gap de desenvolvimento difícil de fechar. Sem capital para modernizar o que sobrou de suas usinas e fazendas, o Haiti viu sua produtividade estagnar enquanto o resto do mundo avançava, consolidando sua posição como a nação mais pobre do hemisfério ocidental.
Superar esse ciclo exige mais do que caridade; demanda uma reparação histórica e o fim da impunidade política. O Haiti não é pobre por falta de recursos naturais ou potencial humano, mas sim um país empobrecido por um projeto de isolamento deliberado que uniu potências globais e vizinhos regionais em torno do medo de sua liberdade.