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A quinta história

Como matar o tédio

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Autor/Imagem:
Edna Domenica - Foto Divulgação

Queixei-me de tédio. Um colega do colégio ouviu-me a queixa. Deu-me a receita de como matar o tédio… Que usasse o tempo em partes desproporcionais: passar muitas horas nas redes sociais, escolher dentre os desafios de coragem, praticar um dos atos sugeridos. Assim fiz.

A outra história é como a primeira, mas se chama “Apropriação”. Começa dizendo que eu me queixara de tédio. Um colega me ouviu. Segue-se a receita. E então entra o inusitado. A verdade é que só em abstrato me havia queixado de tédio, que nem meu era: pertencia a um grupo de amigos da escola. Só na hora de consumar o livramento do tédio é que se tornou meu também. Em nosso nome, então, comecei a sentir a adrenalina numa concentração mais intensa. Um vago rancor me tomara, um senso de ultraje.

Eu aviava o elixir do livramento. Um medo excitado e meu próprio lado mal secreto me guiavam. Agora eu só queria gelidamente uma coisa: matar cada cachorro dócil que os babacas do parque alimentavam. A calada da noite ouviu nosso primeiro ato comunitário de coragem. Durante a noite eu matara. Em nosso nome amanhecia. Próximo ao parque, um galo cantou.

A terceira história que ora se inicia é a da “Viralização”. Começa dizendo que eu me queixara de tédio. Depois vem a mesma sequência receitada: passar muitas horas nas redes sociais, narrar o enfrentamento do desafio de coragem, e pormenores da prática do ato heroico realizado. Vai indo até o ponto em que, de madrugada, nosso ato tinha viralizado. De minha fria altura de gente que é dona, olho a derrocada dos cachorros sem dono, mundo a fora. Amanhece. Da história anterior canta o galo.

A quarta narrativa inaugura nova era. Começa como se sabe: queixei-me de tédio. Vai até o momento em que vejo a repercussão nas redes sociais e televisiva. ”Orelha” – fora morto, sim. Mas penso nos parques e praças, por onde nessa mesma noite renovar-se-á uma população lenta e viva de cães dóceis na fila do osso. Eu iria então renovar o estoque letal como quem já não dorme sem a avidez de um rito? E todas as madrugadas me conduziria sonâmbulo até o vício de ir ao encontro da estátua que o meu livramento do tédio a mim mesmo erguia? Estremeci de mau prazer à visão daquela sensação trapaceira. E também ao aviso sobre o vício de viver de modo tão trabalhoso. Áspero instante de escolha entre dois caminhos que, pensava eu, se dizem adeus, e certo de que qualquer escolha seria a do sacrifício: eu ou meu conforto. Escolhi. E hoje ostento secretamente no coração uma placa de virtude: “Provei minha coragem”.

A quinta história chama-se “A perversidade do topo da pirâmide social, o personalismo, e a importância da coragem”. Começa assim: queixei-me de tédio.

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Referências:

LISPECTOR, Clarice. A Quinta História. In Felicidade Clandestina, Rio de Janeiro: Rocco, 1998. Disponível em .https://nesgadeterra.blogspot.com.br/2013/12/a-quinta-historia-clarice-lispector.html

MEROLA, E Domenica. Os narradores em A Quinta História. Blog Aquecendo a escrita. Postado em 04/12/2017. .https://aquecendoaescrita.blogspot.com/2017/12/os-narradores-em-quinta-historia-e.html

MEROLA e MOTTA – A voz dos vencidos e a procura da coisa, em Lispector – Notibras

.https://www.notibras.com/site/a-voz-dos-vencidos-e-a-procura-da-coisa-em-lispector/

Edna Domenica é autora de “O Setênio” (Tão livros, 2024) e co-autora de “Rapsódia da Rua da Mooca” (Tão livros, no prelo). Dedica-se ao PRCDC – “Programa de Recuperação Cognitiva e Dessensibilização de Cromofobia” – um projeto de releituras dos autores: Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto e outros.

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