Segunda-feira
Como os homens são imaturos
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Imaturidade para alguns seria a incapacidade de não agir de acordo com a idade. Seria o caso, por exemplo, de um sujeito de 40 anos continuar com o pensamento de quando era pouca coisa mais do que um adolescente ou, então, não se envergonhar por agir como um tolo diante de situações que já deveria ter superado. Exemplo? Ah, o encontro de uma ex-namorada acompanhada de outro, ainda mais quando se trata de, digamos, um homem mais atraente do que ele.
Não estou aqui para desqualificar tais ideias de imaturidade. Talvez também sejam exemplos fiéis para grande parte dos habitantes do planeta. No entanto, permita-me discordar e, chego ao ponto de me desculpar por certa arrogância, mas considero tudo isso uma tremenda bobagem.
Quer saber mesmo o que é maturidade? Então, lá vai! Vou lhe contar um breve, mas bastante esclarecedor, episódio ocorrido com Guilherme, colega dos meus tempos de Banco do Brasil. Sim, fui bancária por praticamente toda a minha vida adulta, tendo me aposentado há pouco mais de ano. E afirmo que não sinto falta da rigidez que horários nos impõem, motivo pelo qual estou muito bem adaptada à situação atual de livre da necessidade de exercer atividades laborais.
Guilherme de Aquino Loureiro, então casado há praticamente oito anos com Maria Clara, uma filha de cinco anos… Creio que era isso, caso a memória não esteja me pregando uma peça. Não que eu esteja tão velha assim, apesar de há tempos a maior parte das pessoas ter passado a cultivar o hábito de incluir um “senhora” ou, o que é muito pior, um “dona” antes do meu nome.
Confesso que, a princípio, abominei aquela sonoridade, como se fosse algo que não pertencesse à minha pessoa. Mas quer saber de uma coisa? Hoje nem ligo ou, caso o sinta, já nem percebo, como se estivesse com o dentista cutucando meus dentes com aquele motorzinho. O som continua lá, pois não fiquei surda, mas a região está anestesiada.
Pois lá fui à cantina pegar um pouco de café, minha necessidade especialmente às segundas-feiras… E nem adianta me lançar esse olhar enviesado. Sou humana e tenho cá os meus defeitos, que certamente são mais honestos do que os da maioria e, arrisco a dizer, dos seus. Mas não criemos imbróglios desnecessários, ainda mais quando o nosso alvo é o Guilherme.
Antes de pegar o café, eis que notei o olhar de lamúrias do Guilherme direcionado para o Juca, uma das criaturas mais abomináveis que já tive o desprazer de esbarrar. Quer dizer, não foi tão ruim assim, pois consigo aprender até mesmo com os piores vermes. Sem contar que o danado não era de se jogar fora. Todavia, isso é assunto para outra hora.
— Fiz tudo pra ela, Juca. Tudo!
— Força, meu amigo. Tem uma hora que até o maior dos amores dá aquela esfriada. Imagina, então, esse lance de vocês dois.
— Mas e o afeto? Pensava que ao menos afeto ela tinha por mim.
Como não costumo me intrometer em conversas alheias, ainda mais as carregadas de lamúrias, tratei de tomar o meu café em outro lugar e já havia me virado para voltar à minha mesa, quando o Guilherme quase me intimidou a dar minha opinião.
— E por que você imagina que a minha opinião sirva de alguma coisa?
— Bem, você é mulher, deve saber mais dessas coisas.
— Hum!
— Então?
— Quer mesmo saber?
— Quero!
— Depois não vai reclamar, hein!
— Ok.
— Promete?
— Prometo, Elisa!
— Guilherme, acredito que a sua mulher possui afeto por você. No entanto, não se iluda.
— Como assim?
— Afeto não impede traição.
— Elisa, do que você está falando? Por que você meteu a minha esposa nisso?
— Eu?
— Sim! Você!
— Peraí! Do que vocês estavam falando?
— Da Áurea.
— Da Áurea?
— É! Não reparou como ela veio trabalhar hoje? Uma grosseria com todos, especialmente comigo. Você acha justo, ainda mais depois de tudo que fiz para que ela não perdesse a gerência da nossa equipe?
— Desculpe, Guilherme, mas preciso voltar a trabalhar. Tenho um monte de relatórios pra fazer e não quero levar uma bronca da Áurea.
Antes mesmo de me sentar, senti uma vontade de gargalhar por conta da minha atrapalhada. Se alguém percebeu ou não, desconfio que até pode ser. Mas quem é que repara nessas coisas justamente numa segunda-feira? Que dia amaldiçoado!
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Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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