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Asa Norte

Concentra Mas Não Sai

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Autor/Imagem:
Eduardo Martínez - Foto Irene Araújo

Gilberto era um chatonildo agudo nas palavras da esposa, Lúcia. É que o sujeito era do tipo que fazia questão de ser pontual até mesmo para churrasco na casa dos amigos. Se o evento começava às 13h, lá estava o homem plantado em frente ao portão da casa exatamente nesse horário.

— Mas, Gilberto, se a gente chegar cedo, ninguém vai estar lá.

— Lúcia, se não quisessem que chegássemos às 13h, que marcassem para as 14 ou 15h.

Até o anfitrião estranhava a pontualidade do Gilberto. Entretanto, para não causar imbróglio desnecessário, oferecia-lhe um café enquanto a cerveja era colocada para gelar. Aproveitando o ensejo, Lúcia ia para o canto conversar com a dona da casa.

— Ah, desculpe, Jordana, mas é que o Gilberto não perde a mania de abrir a igreja para o padre entrar.

Acordava às 6h, fazia o dejejum às 6h30. Almoço era ao meio-dia, pois depois disso já ganhava outro nome: refeição dos irresponsáveis, lanche antecipado ou, dependendo do horário, entrada para o jantar. E haja paciência para suportar a falta de molejo do gajo. Até mesmo a Lúcia, que certamente possuía um lugar privilegiado reservado no Céu, já queria entregar os pontos.

Longe de possuir o carnaval de Recife, Salvador e Rio de Janeiro, Brasília possui lá seus blocos de rua, que fazem os bambas não perderem o compasso. E entre os mais animados está o Concentra Mas Não Sai, na Asa Norte.

— Ah, amor, vamos!

— Lúcia, eu não gosto de bagunça.

— Mas é carnaval, meu bem. E eu prometi às minhas colegas que ia.

— Hum!

— Olha aqui, Gilberto, se você não for, vou eu sozinha!

Sem como negociar perante a determinação da esposa, lá foi o homem acompanhá-la. Ela, de odalisca; ele, de marido contrariado.

Assim que chegaram, o samba comia solto. Marli, Carla e Neide, embaladas pelo ambiente, sambavam o bom samba.

— Mulher, achamos que você não vinha mais.

— E eu sou de perder o Concentra, Neide?

E samba daqui, bebe dali, sua por todos os poros, a tarde avançou ao som das marchinhas para a noite na capital. E haja disposição! E de tão envolvente que estava toda aquela situação, até o aborrecido Gilberto se deixou levar pelo embalo. Para falar a verdade, dizem que perdeu a linha e precisou ser carregado pela esposa e as amigas para o lar, doce lar.

No dia seguinte, despertou quando o ponteiro do relógio caminhava sem qualquer cerimônia para as 16h. Ao lado, Lúcia, com aquele sorriso vitorioso nos lábios.

— Ah, Gilberto, carnaval é bom demais porque bagunça toda a rotina.

……………………

Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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