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Vila Planalto

Confraria da Saudade leva lulistas à Tia Zélia

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Autor/Imagem:
Luciano Lopes - Foto Arquivo Pessoal

O final da tarde de sexta-feira, quando o sol se escondia por trás das árvores raquíticas do Cerrado, prenunciava um sábado ensolarado. Na mesa de uma ‘padoca’ na Asa Norte, discutíamos o jeito de se fazer política ontem e hoje. Lula estava na China; nosso grupo de lulistas, em Brasília. Lembranças do passado vieram de relance. O primeiro grito, a primeira bandeira, o primeiro boton, o primeiro amor àquele que, sabíamos 20 anos atrás, faria do Brasil antônimo do que dissera Charles De Gaulle quando esteve no Brasil comandado por generais de plantão no Planalto. A crença, logo confirmada, era a de que voltaríamos a ser um país sério.

Enquanto muita gente começava a sextar, recolhíamo-nos em diferentes direções. Antes, porém, acertou-se voltar aos tempos de outrora, à primeira-idade da vida do cidadão eleitor que caminhava contra o vento, sem lenço, sem documento, peito aberto, braços nus, na certeza de quem sabe fazer a hora não espera acontecer. Decidimos, então, que a Confraria da Saudade iria sabadar onde tudo começou. Na Vila Planalto. Mais precisamente, lá no Tia Zélia.

Logo cedo confirmou-se o que se previa na véspera. Um sábado de raios solares intensos com nuvens esparsas que passavam ao largo. Coube a uma das patroas, estressada com o assédio moral que insiste em fincar raízes na Caixa, reservar uma mesa para 12, que se transforformou em uma pequena multidão de 28, descontados os que, com compromissos previamente marcados, passaram para um oi, uma meiota e deixar aquele abraço. Foi um sábado que transportou a um domingo no parque, embora sem o contexto de José, o rei da brincadeira, e João, o rei da confusão.

Para a turma do AA (água em dobro, com direito a sucos e refrigerantes) garrafas de H20 com bolhas de ar dentro. A maioria, porém, preferiu uma loira gelada regada a doses daquela limpidez e de aroma suave vindos de Salinas. Houve quem pedisse um Cabernet safra pra baixo de 2016 e um espumante.

– Vou ficar devendo, disse a garçonete.

– Zélia está aí?, indagou um dos confrades.

– Sim.

– Por favor, diga a ela que a velha confraria está aqui e que desejaria degustar uma taça. Pode ser daquelas abobadadas ou das mais longas, embora finas.

Não demorou, veio da casa, mandada buscar pela própria Tia Zélia, champanhe na temperatura ideal. A rolha foi sacada vagarosamente, sem estrondo, para que não se desperdiça-se uma gota sequer daquele precioso néctar.

Sob um grande toldo e sombra de árvores da idade da agora aniversariante Brasília, gente de todas as classes, de todas as raças, de todas as cores, de todos os cleros e de todos os gêneros. Na nossa extensa mesa, um ou outro com cabelos cor de neve fossilizada que não derrete sob o sol; maridos e esposas; filhas e namorados; e, claro, azarões e azaronas. Naquele aglomerado de gente, jornalistas, publicitários, agentes públicos com assento na Esplanada, ativistas políticos, juristas e até policiais (do bem, claro).

Meio dia e meia começaram os brindes. Lá pelas 15, os herdeiros dos mais velhos começaram a se despedir. Coisa de jovens que ouviram, aprenderam e foram espalhar os novos ensinamentos.

Prato do dia: feijoada, carne de panela e galinhada. Comida preparada com carinho e sabor equiparados àqueles servidos no Olimpo

A conversa girou em torno dos mais diferentes assuntos. Como estávamos em confraria, teve espaço até para política, futebol e religião. As únicas divergências pontuais foram anotadas quando citaram-se Vasco e Flamengo.

Herdeiros fora, o ambiente já quase vazio, um confrade levantou-se e seguiu em passos lentos em direção à parte interna do restaurante. Beirava as 16 horas. Curioso que sou, fui na sombra dele. A primeira visão, emotiva, foi a do abraço dele em Tia Zélia. Os cabelos brancos dos dois davam mais brilho aos beijos e afagos carinhosos. Ele, branco, nariz e seus 1.70 característicos daquela gente com sangue do Oriente Médio. Ela, baixinha, negra, vistosa sobre seus 1.50 – desde que sobre um banquinho. Embora antigo frequentador do local, só então tive a oportunidade de conhecer, beijar e abraçar Tia Zélia. Baiana de Terra, que fala pelos cotovelos, ela questiona se eu gostara da comida, do atendimento. A resposta não poderia ser outra que não a de um súdito de Sua Alteza Tia Zélia.

– Tudo do mais alto nível, respondi.

Seguiram-se conversas. Tia Zélia contou da coragem de trocar o sertão baiano para ajudar a desbravar o barro vermelho da nova Capital. Sua alegria contagiava a cada palavra. Ela aqui chegou em um dia 19 – dizer mês e ano seria quebrar meu lado cavalheiresco e revelar a idade de uma verdadeira dama. Veio na boleia de um caminhão, típica pau-de-arara, diretamente para a Vila Planalto. Como só sabia cozinhar, e dona de poucas letras, entregou-se de corpo e alma à gastronomia, destacando-se num ambiente onde, se antes se vendia marmita, passou-se a atender em mesas com toalhas limpas e serviço de primeira classe.

Da nossa conversa, destaco alguns diálogos.

– A senhora ainda comanda a cozinha?

– Não, meu filho. A engrenagem do coração já não é mais a mesma. Mas minha vontade – e digo isso para as meninas que trabalham comigo – é fazer o teste do coração daquele jeitinho que nos vira os olhos.

– Aquilo?

– Sim, meu filho. Ainda estou azeitada, revelou, em meio a uma doce gargalhada.

A história da vida de Tia Zélia, que ficará para a história, é linda. Seu restaurante é conhecido como o ponto da democracia. O mural de fotos (que aparece ao fundo da imagem que ilustra este texto), fala por si.

O último outubro primaveril ficou ainda mais florido com a recondução, pela terceira vez, de Lula ao Palácio do Planalto. Tia Zélia recorda que transpirou suor por todos os poros, mas, mesmo que tensa logo no início da apuração das urnas, tinha certeza de que o nordestino viraria a mesa com uma enxurrada de votos. A noite se pintava com o brilho das estrelas distantes daquele 31 de outubro, quando seu restaurante começou a lotar. Era a festa da vitória. De novo.

Tia Zélia é indescritível. Para meu confrade, que tem bem mais cabelos brancos, é Zélia. E só. Se você, caro leitor, não conhece, dê uma chegada lá. A Vila Planalto é grande. Mas o Restaurante da Tia Zélia tem seu próprio universo. E qualquer um nativo saberá dizer como chegar lá.

Tim-tim.

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