Ponta cabeça
Conservadores são uma família quase angelical, pero no mucho, cremos
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Nesses tempos em que o Brasil está de ponta cabeça, brasileiros que já foram fiéis a determinados santos, entidades, políticos e clubes passaram a acender velas de todas as cores e a rezar conforme a missa ou a curimba. Ou seja, atualmente a fé é depositada sobre aquele que dá mais ou que pode acabar mais rapidamente com quem incomoda. No futebol, os flamenguistas, vascaínos, palmeirenses, corinthianos, santistas, atleticanos, cruzeirenses, gremistas, colorados e tricolores já não se sustentam mais conservadoramente torcendo somente por seus clubes.
O prazer maior passou a ser a derrota ou o fim dos adversários, hoje tratados como inimigos. Em escalas maiores, acontece o mesmo na supostamente conservadora política brasileira. Alguém aposta, torce, vibra e participa de governo que trabalha pela maioria? Duvido! Jair Messias só foi o cara, o mito, o imbrochável, o perigote das venezuelanas indefesas, o comedor de frango com farofa, o terrivelmente evangelizador dos patriotas emburrecidos e o mentor intelectual de um fracassado golpe porque aceitou fazer o jogo do poder. Tudo em nome do conservadorismo.
Apesar de todos os rótulos, por absoluta incapacidade administrativa (e política) entregou o governo nas mãos do Centrão. Deu no que deu: saiu pela porta dos fundos do Planalto, deixou o país à beira do abismo está fora da política até que a vida os separe, preso e com data de validade vencendo. Os que pensam com todos os neurônios lembram que o Brasil só não foi à bancarrota porque, como dizem, Deus é brasileiro, nacionalista e, acima de tudo e de todos, democrata. Conservador, mas correto, sério e verdadeiramente santo.
Esses brasileiros também não esquecem que, antes da derrocada, o então deputado Eduardo Bolsonaro já trabalhava pelo expurgo nacional de Lula da Silva. Dizia ele à época que, “embora os conservadores tenham despertado e sejam a maioria, o Brasil continua sendo dominado por uma minoria que não tem escrúpulos, mas que tem mais de 100 anos de organização”. Como a referência elogiosa do ex-parlamentar era relativa ao progressismo, primeiro é preciso registrar o reconhecimento do “nobre” Bolsonaro pela força da esquerda, cuja maioria esmagadora só é esquerda por tem horror à direita.
Depois, o que é escrúpulo para quem se dizia defensor, mas não conseguiu nem mesmo viver em família, muito menos ter valores cristãos. Pelo contrário. Como todos sabem, Dudu do Hambúrguer não hesitou em trabalhar contra a própria pátria e sempre tentou impedir toda e qualquer liberdade individual. Será que escrúpulo é lutar pelo poder à força e à custa do sofrimento alheio? Claro que não. Aos que agem desse modo apelidamos de imorais, trapaceiros, usurpadores, desprezíveis, malignos, corrosivos e inescrupulosos. Conservadores, pero no mucho.
Os mais velhos conhecem – pelo menos deveriam conhecer – a história dos anos que sucederam o período de chumbo. Os mais novos poderiam conhecê-los aproveitando melhor o tempo perdido na internet. Atentados e explosões quase diários em bancas de jornais do Rio de Janeiro são episódios que até hoje habitam o consciente e o subconsciente do brasileiro que trabalha pela manutenção da democracia. Para os que defendem a ditadura, esses “eventos” continuam povoando suas mentes sujas e ocas como feitos necessários à grandeza nacional.
É o tipo de grandeza que os torna cada vez menores. E quem esteve por trás de todos esses fatos? Justamente os santificados conservadores. Interessante é que nem eles sabem o significado do termo conservadorismo, cuja definição nada tem a ver com cerceamento de liberdades ou distinção de raças, credos ou classes sociais. Conforme o disse onário, trata-se de uma ideologia política ou moral que acredita que o governo e/ou a sociedade tem o papel de encorajar e estimular valores ou comportamentos tradicionais. Portanto, não há na literatura brasileira nenhuma sintonia entre um cidadão e um torcedor conservador e um mandatário golpista e um torcedor tirânico.
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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978
