A profetisa
Conto prometido em Saudades do Alentejo
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Foi em 1975, em Évora, em plena revolução portuguesa.
Eu terminara minhas aulas na escola do caraça (caraça é o equivalente do caraca brasileiro, equivalente a vocês sabem a quê; era assim que os estudantes designavam, em total desrespeito, a Escola Superior de Estudos Sociais e Económicos Bento de Jesus Caraça) e estava voltando para Lisboa. Mas antes entrei num bar na praça do Giraldo e tomei três imperiais (chopes) bem gelados, que fazia um calor de untar o bestunto. Resultado, fiquei meio altinho e, pior, de bexiga cheia.
Com a calibragem etílica, flutuei, a uns 10 cm do solo, até a estação de comboios (trens) e comprei a passagem. Estava quieto, sentado no banco de um vagão, quando ela sentou-se bem diante de mim, cruzou as pernas e dirigiu-me um sorriso sedutor. Não lembro seu nome, minha memória virou uma lama.
Ela aparentava uns 25 anos. Era uma camponesa alentejana típica, mais forte do que gorda, mais feia que bonita. Mas suas coxas, que ela cruzava e descruzava sem parar! Eram muuito mais gostosas que pernis de porco preto, variedade suína local famosa pelo sabor de sua carne. A cada cruzada de perna, suas cuecas, a calcinha lusitana, ficavam à mostra, num exibicionismo ostensivo. Eu, 29 anos, um casamento em frangalhos, solteiro por opção em Portugal, a quem qualquer prazer divertia, aceitei o convite da dona das coxonas e sorri de volta.
– És professor, pois não? – indagou-me.
– Sou sim – e acrescentei, sonso. – Como sabes?
Claro que ela sabia, muita gente sabia. Novidade em Évora, o brazuca do Caraça, que gostava de canções alentejanas e punha seus alunos a entoá-las, estava se tornando uma atração menor. Não uma celebridade como Giraldo sem pavor, que em 1165 tomou Évora dos mouros, e muitíssimo menos que Júlio César (ou Otávio, o primeiro imperador romano), que deu o nome de Liberalitas Julia ao núcleo; mas estava chegando lá, impelido pelo canto alentejano e porradas de imperiais.
– Tenho o dom da profecia – disse ela. Abriu um sorriso, que tornou quase bonito seu rosto, e prosseguiu com a exibição.
Profetisa? A coisa ficava mais divertida a cada momento, e a conversa, mais excitante a cada insinuação, a cada frase.
Lá pelas tantas, não sei por quê, passamos a falar francês. Isso evidentemente a excitou, pois as pernas se entreabriram mais e mais, o exibicionismo entrou na avenida, saudou o público e pediu passagem. Meu voyeur interior uivava feito um lobo. Ela observou, satisfeita, que eu também estava excitado. Só que metade era por seu corpício, a outra metade, por uma vontade arretada de urinar.
O comboio chegou e ela levou-me até sua casa, que ficava bem perto da estação. Eu não dava a mínima para a possibilidade de ser roubado, isso era raro na Lisboa daquela época, nem de enfrentar as guampas de um corno ciumento. E, confesso, nem para a perspectiva de traçar a profetisa. Só pedia aos deuses que me fizessem aguentar até achar um banheiro.
Entramos num quarto simples, com uma cama, uma pia e pouco mais. Ela arranjou um pretexto, em francês, “Il fait chaud ici…” (está quente aqui) e tirou a blusa, revelando peitos enormes, contidos a custo pelo sutiã. Eu a interrompi, sério, em brasileiro castiço:
– Olha, você quer transar, também quero, mas antes preciso dar uma mijada. Urgente!
– Mija na pia – e, com voz rouca e sedutora, mas com um toque autoritário:
– E depois lava-o bem. Vai-me ser útil.
Hora de citar o derradeiro verso do soneto Delírio, de Olavo Bilac:
“Moralistas, perdoai! Obedeci…”
Foi uma transa gostosinha, nenhuma maravilha, o episódio da pia me deixara meio sem graça. Sabia que mais tarde meu desempenho seria meticulosamente analisado, posição a posição, pelas jovens de Évora, entre as quais estariam minhas alunas, mas isso não me causava medo. Eu era um digno sucessor de Giraldo sem pavor, não me assustava à toa.
Uma hora depois de deixar os pernis da profetisa, após uma viagem de metro (metrô), cheguei a Amadora, município colado a Lisboa, no apartamento onde morava com dois amigos: Telmo (codinome) e Baiana (apelido), ambos exilados políticos. Contei o episódio, omitindo qualquer referência a minha urinada-guaçu.
Com o humor ácido que era sua marca registrada, foi Baiana quem titulou o caso. Pensei em utilizar sua aliteração neste texto, mas refuguei, sou um contista de costumes irreprocháveis. Mais ainda, suas palavras soariam atualmente como um preconceito antifeminista inadmissível em nossos arraiais da esquerda, algo digno de bolsomínions:
– O professor e a professuta – resumiu a rainha do coletivo de Amadora.