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No ônibus

Convite para um happy hour

Publicado

Autor/Imagem:
Fernando de Assis - Texto e Foto

O sol ainda parecia preguiçoso naquela manhã enquanto Arnaldo caminhava em direção ao ponto de ônibus. Aquela era uma rotina à qual já estava acostumado, como todo bom carioca que mora longe do trabalho, e, pior, longe do ponto de ônibus mais próximo de sua casa. No caminho avistou Márcia que também passava pelo mesmo problema. Arnaldo não pode deixar de observar, mesmo na distância, o quanto ela estava atraente, aliás, como sempre, mas esse pensamento foi logo interrompido.

— Bom dia, Arnaldo!

— Bom dia, Márcia! Hoje você não está com aquela carinha de sono – comentou.

— É que hoje é um daqueles dias, né!

Arnaldo não compreendeu, mas ele era assim mesmo, demorava a captar. Márcia já sabia como ele era, então foi explicando.

— Hoje é sexta-feira, esqueceu?

— Ah! Pra mim dá no mesmo – devolve ele sem entusiasmo. – Tenho que trabalhar do mesmo jeito.

— Ora, Arnaldo, mas tem o fim de tarde… sabe como é que é, né? Happy hour… coisa e tal!

— Não vejo graça nisso, você sabe.

— Deixa de ser bobo, a vida é bela – diz Márcia cheia de animação, mas também pressentindo que aquele era um bom momento para provocar Arnaldo – Tá aí! Vamos sair hoje com a turma? A gente vai se encontrar no Amarelinho para tomar uns chopps, e depois, quando todos estiverem reunidos, vamos para o Asa Branca, vai ter um show de MPB muito legal lá.

O tal Amarelinho é um bar histórico na Cinelândia, no centro do Rio, e o Asa Branca é um espaço cultural localizado na Lapa, outra região nobre também do centro do Rio. Lá acontecem shows e o lugar conta com uma excelente gastronomia.

— Vem com a gente! – incentiva Márcia animadamente.

Mas Arnaldo foge.

— Sei não! É melhor deixar para outra hora – diz ele, e lança um olhar por sobre as cabeças que se juntavam no ponto. – Olha lá o ônibus. Vamos correr?

E lá se foram os dois na correria. Arnaldo foi socorrido pela chegada do coletivo. Ele era muito recatado, discreto e tímido. Sentia-se pressionado por Márcia que sempre foi muito expansiva. O ônibus para com o povo se aglomerando na porta. Em meio a agitação que se formara, Márcia entra primeiro e Arnaldo em seguida. Dentro do coletivo não há mais lugar para se sentarem e os dois ficam de pé. A conversa prossegue de onde havia parado. Márcia insiste com interesse.

— E aí… vai ou não vai?

— Você sabe que eu não sou dessas coisas – responde Arnaldo com timidez.

— Qual é, Arnaldo! Vai ser legal. Você vai gostar – completa Márcia com um sorriso e uma piscada de olho.

Uma passageira, sentada próxima a eles, ligada na conversa, olha para a cara de Arnaldo que está bem a sua frente, em seguida olha para Márcia, só para conferir. A conversa lhe soara como algo desavergonhado. Seu olhar é crítico e de desprezo, para ambos. Sentado ao lado da mulher, alheio ao que acontece, um sujeito tem os olhos no celular e os fones introduzidos nos ouvidos, mas não deixa de notar a inquietação da jovem senhora que remexe as cadeiras no assento, então interrompe o que está fazendo e olha para ela com interesse. A mulher não percebe a languidez em seus modos. Enquanto isso a conversa do Arnaldo continua.

— Vou pensar – diz ele, mas sem jeito, parecendo querer fugir da vizinha e colega de trabalho.

— Vai pensar por quê? Não tem como não gostar – Insiste Márcia, sorrindo.

— Não se trata de gostar. É que eu não sei se fica bem.

A senhora olha para a cara do homem a seu lado, o dos fones. Ela está escandalizada com a conversa de Márcia e Arnaldo, desejando saber se é mesmo sem-vergonhice o que estava entendendo. O homem retribui o olhar. Sorri. Para ele não havia mais dúvida.

Márcia prossegue.

— Qual é, Arnaldo! Parece que tem rabo preso.

— Você sabe que não é isso – diz ele, mas deixando no ar.

— Não sei de nada.

— Então, melhor assim.

O ônibus para, surge uma vaga em um assento que de imediato é ocupado por Márcia. Arnaldo deixa o pensamento voar; o convite de Márcia o incomoda. Não era seu costume desfrutar de tais momentos, era tímido, principalmente com colegas de trabalho, mas a proposta não era ruim e ele sabia. Valia à pena pensar no assunto. Afinal, todos dizem que é legal, e por certo que é. Arnaldo leva a vida de forma muito séria. Vez por outra Márcia olha para sua cara e ele lhe sorri sem graça.

A viajem segue em silêncio para Márcia e Arnaldo, mas a mulher ao lado do homem com fones permanece com ouvidos e olhos atentos. Ela disfarça, fingindo olhar a tela do celular na mão do sujeito. Ele sorri, e fica com a impressão de que a viu retribuir o sorriso, mas tudo fruto de sua imaginação. Animado, o sujeito retira um dos fones do ouvido, e o faz com vivo interesse na jovem senhora a seu lado. Sua vizinha de assento volta a olhar para Arnaldo, dando ensejo a que se aproveite de sua distração para observar suas coxas ocultas pelo vestido apertado; e para seu maior deleite, com a agitação, um dos botões de sua blusa se abrira, e o que ele vê lhe parece ‘apetitoso’.

Retornando de sua distração, a mulher volta a olhar para o sujeito a seu lado e este lhe sorri mais uma vez. De modo ousado, porém furtivo, ele lança os olhos em seu decote. Ainda ocupada com a vida alheia, e sem perceber as intenções do passageiro a seu lado, a mulher resolve iniciar com ele uma conversa, em tom baixo, porém, sua infeliz abordagem, aumenta o estado de excitação do sujeito.

— O que o senhor achou?

Aquilo só podia ser sobre o decote, pensou ele. O momento lhe parecia adequado. Por nada perderia aquela oportunidade. Ele sorri para a mulher. Tem a cabeça em devaneios. Parece que vai ser fácil.

— Apetitosa! – devolve ele com languidez.

A indignação toma conta da mulher, mas ela ainda não percebe que o “apetitosa” foi para ela.

— Esse mundo está mesmo perdido – dispara, com uma careta de desprezo.

O sujeito acha que a gostosa está se fazendo de difícil. Então insiste, com voz miúda, quase em sussurro.

— Fala sério! É claro que você não pensa assim.

— Por que está me dizendo isso? – revida novamente, aprumando-se e muito séria.

Mas o Dom Juan já havia incorporado no sujeito.

— Ora, por quê?! Toda essa beleza que você carrega me faz crer que pensa diferente – responde, e como complemento, mais uma vez seus olhos invadem o decote da mulher.

Ela finalmente lhe percebe as intenções, então se recompõe, ajeita a blusa, agora se dando conta do botão que abrira de forma involuntária. Furiosa se põe de pé, vermelha e cheia de pudores.

— Do que o senhor está falando? – reage, quase aos berros.

— Ora! De sua oferta, é claro! – arremata ele, agora tentando se defender, mas ainda com um sorriso.

— Eu não lhe fiz nenhuma oferta, seu depravado – contesta a mulher, muito indignada, já se preparando para investir agressivamente contra o sujeito.

Àquela altura a contenda já havia chamado a atenção de todos os passageiros. O homem sente necessidade de se defender, então eleva a voz.

— Pois eu lhe afirmo que estou observando seus modos faz tempo, e a única coisa que fez desde que colocou os olhos em mim, foi se oferecer.

Márcia sorri para Arnaldo que pressente a formação do barraco. O ônibus para. Aquele é o ponto, os dois saem rapidamente. Do lado de dentro, a mulher não vê quando os dois deixam o coletivo; está ocupada descendo a mão no homem que ela mesma havia permitido que invadisse seu decote, alimentando desejos, enquanto se ocupava com a conversa alheia.

Do lado de fora, mais descontraído, Arnaldo sorri para Márcia. A manhã prometia, lhe dera ânimo. Aqueles dois lá ônibus que se entendessem, quanto a ele… no final daquela tarde de sexta-feira, iria ao happy hour com Márcia e a turma do trabalho.

Moral da história…

“É melhor tomar cerveja com os amigos do que tomar conta da vida dos outros.” (frase de placa de área gourmet)

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