Curta nossa página


Tradições

Coronel de Papel

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e foto

Naquele final de dia, o velho coronel acordou aceso.

Saiu da cama e chutou o cachorro, gritou com a “Nega Véia” e esmurrou a mesa resmungando do papagaio que não parava de falar.

– Caracoles! Roubaram a minha aposentadoria -, praguejou ao olhar a mensagem no celular.

Depois foi ao escritório da casa, ligou a calculadora e fez contas e mais contas.

Olhou as ações, respirou e acendeu um charuto para tentar relaxar. Não relaxou.

No almoço, sentado à cabeceira da grande mesa no centro da sala da casa grande, continuou pilhado, xingando a “Nega Véia” e praguejando contra Honório, o papagaio fiel da família a mais de vinte anos.

– É por essas e outras que esse país de merda não vai pra frente! O governo rouba tudo o que conseguimos juntar com tantas batalhas e lutas. E agora não é saque real, escambo, assalto à mão armada… é tudo virtual, nos computadores, pelo celular.

Apesar de quase octogenário, Felisbino era fissurado pelas coisas da internet.

Coronel “de patente comprada” na última ditadura, jamais fora visto sem o seu casaco militar, ostentando dezenas de medalhas no lado esquerdo do peito, “pertinho do coração”.

O dia prosseguiu lento e calorento.

No final daquela tarde, a “Mama Véia” permaneceu calada.

Mama -na verdade, Matilda de Andrade e Soleda -, filha única do coronel Adamastor, o rival morto pelos capangas de Felisbino depois de abençoar o casamento “por interesses” dela com o rival, entardeceu sentada no fundo do quintal olhando o Sol cair para dormir.

À noite, após o jantar, o coronel gritou:

– Vamo lá, dona “Encrenca” … Lava as “coisas” aí que hoje eu tô necessitado: roubado, a bucha e o ferro é bem mais forte!

E foi uma longa madrugada.

Pela janela, ao amanhecer, um raio de Sol bateu na cara do velho coronel.

Estranhamente, Felisberto acordou calmo e vazio.

Como num último nascer de Sol, o coronel foi até a cozinha e trouxe um belo café completo para Mama.

Ela acordou assustada. Depois compreendeu. Era chegada a hora da redenção.

O coronel pegou o eterno casaco com as medalhas e caminhou até o quintal; embaixo do grande pé de jequitibá detalhadamente ateou fogo na peça e ficou ali, por minutos, como se vendo o filme de sua vida a passar. Retornou ao quarto e deitou-se ao lado da velha amiga e companheira.

Dois dias após, os corpos foram encontrados por Olívia, a indiazinha adotada por eles e, hoje, mulher feita e estudada.

Felisbino e Matilda abraçados sorrindo, nus e fedorentos tomados pelo tempo e a fragilidade da matéria.

…………………….

Gilberto Motta é escritor, jornalista e ainda sonha quase todas as noites com causos que poderiam ser contados por Gabo e/ou Rosa numa noite longa qualquer. Vive na pequena vila pesqueira da Guarda do Embaú SC.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.