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Caçador de bandidos

Corrupção sobrevive no DF em meio a panetone e falso negativo

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Foto/Imagem:
Pretta Abreu, com colaboração de José Seabra - Foto Marília Fonseca

Na imaginação do brasiliense, a capital da República não cria corruptos. A cidade apenas abrigaria quem, vindo de fora nesse tal de entra governo e sai governo, se encastela em luxuosos gabinetes distribuídos entre a Praça do Três Poderes, numa ponta, e a Praça do Buriti, na outra extremidade. Ledo engano. Isso não passa de folclore.

Os corruptos foram chegando e fincaram raízes que fizeram brotar seus próprios frutos. Essa é uma realidade incontestável. E quem tenta acabar com a safadeza desenfreada, vira alvo de calúnia, injúria e difamação – além, claro, de processos nas costas que acabam sendo arquivados.

Embora já tivéssemos caçador de marajás que naufragou na própria jangada, sempre há quem se acredite em condições de dar um basta em toda essa sujeira. Se não a nível federal, ao menos no círculo do quadradinho. Ou seja, a corrupção está com os dias contados. “Pode demorar, mas não sossegaremos até esse dia chegar. E parece que está chegando”.

O trecho aspeado no parágrafo acima é parte de uma conversa de Donny Silva com Notibras. Em 2009 ele desfraldou a bandeira numa campanha contra a corrupção e que hoje tremula com mais força. Como jornalista e dono do blog que leva seu nome, ele vem denunciando os maus feitos em Brasília há 13 anos. Não tem, porém, a força de um legislador-fiscalizador do dinheiro público.

Mas, tempo ao tempo, diz o blogueiro, porque, avalia, poder para acabar com a bandalheira ele pretende ter. Tudo dependerá do novo desafio que Donny se dispôs a enfrentar: virar deputado distrital e atuar, como um rolo compressor, para enterrar de vez a pior mácula de Brasília.

Porém, foi só anunciar com grande antecedência sua decisão, ele entrou na mira de pessoas supostamente poderosas que usam e abusam do erário. Contra Donny criaram uma farsa, mas o Ministério Público acaba de deixar a matilha com os rabos entre as pernas.

Nesses treze anos, Donny, de peito aberto, apontou muita baixaria dos corruptos (eventualmente errando, é verdade, ao atingir pessoas inocentes, mas nessas ocasiões ele dá a mão à palmatória e se redime). Mas o que é errado ele escreve e mantém lá no blog, para quem quiser ler. Doa a quem doer.

De 2009 para cá, a cada novo governo, um caso para ilustrar a corrupção. O primeiro foi uma nevasca de panetones que caiu sobre a cidade, bem antes de Papai Noel embarcar no trenó para distribuir presentes natalinos. Rei morto, rei posto. E usaram as pernas tortas de Mané Garrincha para, saindo pela lateral, carregarem um verdadeiro bolão de ouro.

Chega um terceiro governo. É a vez de um Tom Cruise entrar em ação e promover uma até então missão tida como impossível. Numa trama hollywoodiana que nem os Irmãos Metralhas conseguiram, levaram do cofre do banco não apena a moeda Número 1 do Tio Patinhas, mas muitos milhões de reais.

Já ao final desses últimos 13 anos, quando um quarto governo assume, a cidade, como de resto todo o mundo, vive os sobressaltos de uma pandemia de coronavírus que exige de todos se virarem nos 30 para salvarem sua pele. As mortes inevitáveis provocaram congestionamentos nas portas dos cemitérios. Corre-se atrás de vacina, de teste. Enquanto isso, no meio do caos e na calada da noite, surge o falso negativo. Um roubo (também) de verdade.

Ou seja, vale repetir que entra governo, sai governo, o modus operandi continua existindo, como se os corruptos fossem herdeiros de uma grande capitania hereditária.

Mas, voltemos a Donny e sua tremulante bandeira eleitoral, promessa viva de caçador de corruptos. Quando começou a discutir com partidos políticos uma eventual candidatura em 2022, o blogueiro passou a ser bombardeado. Num vapt vupt promovido por alunos que frequentam escolas de profissionais, começaram as calúnias e as fake news circularam com a velocidade que só a internet proporciona.

A maior das falsidades foi ter atribuído a Donny Silva a propriedade de um site para difundir desinformação. Primeiro erro: se já é difícil manter um blog de qualidade, o que dizer da capacidade de se fazer mais um produto, este sim, que exigiria uma mente fértil para inventar fatos? Segundo erro: todo veículo virtual tem o domínio registrado na .com, com nome, cpf, identidade e endereço do proprietário.

Em 2020, candidato a uma pré-candidatura na eventual condição de colocar seu nome para ser avaliado nas urnas, Donny Silva, repentinamente, viu-se mergulhado em um pesadelo. Seria ele – foi o teor da denúncia – o dono do site (se é assim que se pode chamar) www.deolhonopoder.com.br. Em meio às investigações policiais, o blogueiro foi indiciado. Mas como? Por quê?

O site, consta na Registro.com, é propriedade de Rafael Guimarães, que cumpre pena por roubo em uma unidade prisional de Goiás; parte de laranjal, ele tentou jogar Donny na cova dos leões. Em maio último, mais precisamente às 15h38m45s, o Poder Judiciário, com base em tudo o que foi apurado, arquivou as denúncias contra o blogueiro.

Cumpriram mandado de busca e apreensão contra Donny Silva em endereço errado. Levaram notebook, manuscritos, fotos, celular… Se os policiais tivessem ido ao local certo, por certo teriam voltado de mãos vazias.

Acusado, inocentado, magoado, mas sem rancor. Esse é Donny Silva, agora candidato a uma cadeira na Câmara Legislativa no pleito de outubro. Após seu depoimento no Ministério Público, tudo ficou esclarecido. A polícia, que concluiu um inquérito com açodamento, descobriu um velho ditado bíblico: “Conhecereis a verdade e a verdade prevalecerá”.

Como um futuro e promissor deputado distrital, Donny pretende ocupar a tribuna para repetir o provérbio. Os corruptos que se cuidem.

PS – Filipe, sujeito oculto no texto, contatou a Redação após ler a matéria. Pediu (e foi atendido) para acrescentar uma frase: em todas as profissões há curto-circuito, mas nada capaz de explodir um transformador de alta tensão. E arestas devem ser aparadas em meio a um café. De preferência morno, para não esquentar os ânimos.

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