Realidade
Crônica da fatura e outras tragédias da vida adulta
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Caro e gentil leitor,
A vida adulta está deveras custosa. Não no sentido metafórico, ainda que também, mas literal, bancário, parcelado em até doze vezes sem juros aparentes e com juros emocionais embutidos.
A fatura do cartão de crédito desta temporada apresentou um escândalo digno da Coroa Britânica. Abri o aplicativo com a mesma apreensão com que se abre um dossiê diplomático: certa de que algo ali atentaria contra a minha estabilidade institucional. E atentou.
O curioso é que a vida adulta nos prometeu autonomia, não insolvência. Prometeram liberdade; entregaram boletos. Max Weber talvez explicasse isso como parte do desencantamento do mundo: trocamos magia por planilhas. Nada de dragões, mas juros compostos que, convenhamos, são criaturas igualmente hostis.
A economia moral da adultez funciona assim: você trabalha para pagar o que trabalhou para ter. E no meio disso tenta manter uma vida social minimamente decente, uma saúde mental funcional e um estoque estratégico de café. Pierre Bourdieu diria que estamos acumulando capital econômico, social e simbólico. A questão é que o capital econômico anda exigindo protagonismo absoluto.
Ainda assim, há um certo humor involuntário na situação. A fatura revela mais do que números; ela expõe nossos pequenos desejos de sobrevivência sofisticada. Um jantar aqui, um livro ali, aquela compra online que prometia “melhorar a organização da vida” e, no máximo, reorganizou o limite do cartão.
A adultez é um campo social competitivo. Não basta ser responsável; é preciso performar responsabilidade. Fingimos naturalidade ao dizer “estou organizando minhas finanças”, enquanto, internamente, travamos negociações com o banco como se estivéssemos em conferência da ONU.
Mas talvez o problema não seja apenas individual. Vivemos sob uma lógica que associa valor pessoal à produtividade constante. Byung-Chul Han chama isso de sociedade do desempenho: somos empresários de nós mesmos, inclusive na gestão do débito. A culpa por dever parece sempre individual, raramente estrutural.
E no entanto, caro leitor, seguimos. Pagamos parcelas, renegociamos sonhos, parcelamos viagens e, se possível, mantemos a elegância. Porque se é para enfrentar escândalos financeiros mensais, que seja com postura ereta e senso crítico.
A vida adulta é custosa, sim. Mas ao menos nos oferece material abundante para reflexão sociológica e para boas crônicas.
Entre um boleto e outro, vamos aprendendo: maturidade não é ausência de dívida. É saber que, apesar dela, continuamos investindo em viver.