Curta nossa página


Segunda-feira

Crônica de um olho só

Publicado

Autor/Imagem:
Júlio Cesar Rodrigues - Foto Francisco Filipino

A segunda-feira prometia. Agenda cheia, boletos vencendo. Estacionei o carro e segui pela calçada na direção do escritório onde, além de advogado, às vezes tento ser cronista. Uma brisa leve amenizava a manhã já quente de verão quando aconteceu o ataque.

Veio do nada. Um mosquito — ou algo do tipo — atravessou meu olho direito em pleno movimento. Culpa de tudo isso que hoje em dia atribuímos para qualquer coisa: urbanização desordenada, mudanças climáticas etc.

A criatura era mínima, mas fez um estrago: a vista embaçou na hora, como se houvesse areia na córnea. Parei, apoiei a mão num poste e esperei o mundo parar de girar. Abri o olho com os dedos, tentando expulsar o invasor.

Já tinha ido embora. Mas parecia que não.

— Meu Deus, tenho reunião.

E não era só. Tinha petições para escrever, e-mails para responder, mensagens acumuladas, um PIX pendente. O olho direito ardia, vermelho. O outro nada sofreu, mas, por solidariedade, começou a lacrimejar também.

Cheguei ao escritório aos tropeços. No banheiro, joguei água no rosto, piscando como quem tenta reaprender a enxergar. O alívio era efêmero. A visão continuava turva.

Os papéis sobre a mesa reclamavam providências. A reunião se aproximava. Não dava. Tive que aceitar: pronto socorro, depois casa.

Tudo precisou mudar. Por um mosquito.

— Escreve uma crônica sobre isso — disse o capetinha.

— Poupa seus leitores dessa bobagem — disse o anjinho.

Já dá pra saber quem venceu.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.