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HANNAH CARPESO

DA GARGANTA APERTADA ÀS ÁGUAS PROFUNDAS, A MULHER SE REFAZ

Publicado

Autor/Imagem:
Hannah Carpeso - Acervo pessoal

MULHER DE POUCAS PALAVRAS

Acostumada ao silêncio, sussurra raiva.

Gritar… Não é coisa de gente!

Aprendizado que menina tem que ser contida.

Obediência é passada

Educação em tempo desusado

 

Diziam antigo saberes

Silêncio é ouro – prata é a palavra

Mas ouvido não é surdo

Todavia, caixa de reflexão.

Arrependida esconde a frustração

Nada a impede da observação

Conter o sentir, silenciar o dizer.

Carregar o fardo da estupidez no ar

 

Mulher de pouco falar

Também não se faz calar

 

Consumida pela censura

Resposta engolida, rouquidão abafada,

Fuga da voz.

Garganta e peito apertado

Vontade de desabafar.

 

Mulher de poucas palavras.

Não confunde silêncio à sujeição

Covardia está longe de se instalar

Só precisa do momento certo

Para vomitar

 

Liberta – quem receberá o troco

O provocador ou o tolo,

Arroubará todo o esporro

Guardado… Acumulado no corpo?

 

Por fim, escolhe o alvo.

Àquele que costumava lhe amordaçar

Mulher de poucas palavras

Agora – livre

Para falar o que pensar.

 

 

MULHER, SEREIA OU IEMANJÁ

 

Mergulhei nas águas profundas

Nadei nas rasas também.

Em todas me encontrei.

A cada mergulho,

Buscava pedaços,

Peças desencaixadas…

Um pouco de mim!

Não resistir à pressão

D’ água sobre meu fardo.

Tinha o raso, como refúgio,

Para voltar, aliviada.

A cada mergulho mostrava

Minh’ alma desnudada,

Partes com seus conflitos;

Outras, menos aflitas.

Mergulho nos fantasmas…

Apoderava-me da coragem.

Das águas conhecidas, nadadas,

Permitiam-me ver o fundo do mar…

Com medo, enfrentava o denso,

Repousava na margem,

Descansava o pensamento,

Desejava me acalmar

Nadei no doce, no salgado…

Momentos pares da vida.

Mulher, sereia, Iemanjá…

Águas a me vestir…

Parte de mim, sentir…

Todas são meu login!

.………

Hannah Carpeso, carioca nascida em 1949, é especialista em Educação e Bioética, com passagem pelo magistério e pela Administração Pública Federal. Escreve desde a adolescência e transita entre poesia, contos, crônicas e ficção. É autora de Vidas Paralelas, publicada pela Editora Mandacaru.

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