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Rhum Creosotado

Da memorização de números ao nome de plantas, meu último talento é estar vivo

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Autor/Imagem:
Armando Cardoso - Foto Editoria de Artes/IA

Em um dia de guerra entre o roto e o esfarrapado, nada melhor do que viajar na maionese da infância e da adolescência. Reiterando as dificuldades para os estudos e a pouca atenção aos mestres, lograva recuperar-me com o autodidatismo e com um recurso incomum à maioria dos guris que liam os Jetsons, mas duvidavam que poderiam chegar a se conectar com o mundo em segundos. Craque na memorização, conseguia, por exemplo, informar, com invejável rapidez, as placas dos carros e os números dos telefones de boa parte da vizinhança. Claro que a reduzida quantidade de vizinhos motorizados ou antenados facilitava o trabalho.

Números e alfas das placas eram detalhes. Tirava onda nas rodas, inclusive de mais velhos, ao repetir a fórmula da cibalena – analgésico e antitérmico que “curou” muitos dos antigos. Dimetilaminofenilpirazolona era quase uma frase. Na verdade, soava como um palavrão daqueles que não se descobre quem o vociferou pela primeira vez. Também “faturava” com os nomes de músicas e cantores ingleses, italianos, franceses e norte-americanos e com o ácido acetilsalicílico, composição do Melhoral e da Aspirina, medicamentos quase desconhecidos na atualidade.

Também sabia quase tudo do Vick Vaporub, da Pomada Minâncora e do sabonete Eucalol. Diante de meus conhecimentos medicamentosos, algum leitor desavisado talvez me ache hipocondríaco. Não sou e nem fui. Na verdade, sou – e fui – um pesquisador aleatório, daqueles que adoram ler e conhecer sobre o que é o nada. Não sou de mentir. Por isso, magro feito o cajado do Curupira (?), confesso que usei à exaustão um fortificante similar ao Biotônico Fontoura. O Rhum Creosotado não me fez crescer, engordar ou parar de tossir. Todavia, fazia um bem danado para a alma. Me encantei com o anúncio do tal remédio, ainda hoje conhecido como um dos mais famosos “cases” da propaganda brasileira.

Nos bondes e lotações da época estava colado na lataria interna o seguinte reclame: “Veja, ilustre passageiro, o belo tipo faceiro que o senhor tem ao seu lado. E, no entanto, acredite, quase morreu de bronquite. Salvou-o o Rhum Creosotado”. Como não se encantar? Obra do farmacêutico Ernesto de Souza (1882-1957), o Rhum ganhou fama com a frase do poeta Bastos Tigre (1882-1957), homem de múltiplos talentos. Também é dele o slogan da Bayer (“Se é Bayer é bom”). O Rhum também era bom. Como não lembrar dos sapatos da época. Quando chovia, o pisante, é claro, ficava absolutamente encharcado. Nos dias de sol, o vento entrava pelos furos superiores.

Como o ar ficava preso, o contato do suor produzido internamente gerava o popular e odiado chulé. Por essas razões, o tal sapato era apelidado de “tô na merda”. Os mais aquinhoados usavam o Vulcabrás, que chegou a ter Paulo Maluf como garoto propaganda, e, mais tarde, um kichute, mistura de tênis e chuteira, lançado pela Alpargatas em junho de 1970. Com o slogan “Kichute, calce esta força”, o tênis preferido dos parisienses deportados da periferia de Mônaco teve seu ápice entre os anos de 1978 e 1985, quando suas vendas ultrapassaram 9 milhões de pares anuais. Feito de lona e solado com cravos de borracha, todo ele preto, virou mania entre os meninos, pois era usado tanto para ir à escola quanto para a prática do futebol, ainda mais depois da conquista da Copa de 1970.

Melhor não falar dos políticos de então. Corro o risco de algum deputado ou senador de hoje achar que é deles a primazia de afanar o queijo da goiabada do povo. Não é. A diferença é que os antigos poderiam ser contra esse ou aquele governo, mas nunca pensaram em derrubá-lo. Mais escolados na tabuada de 1, os mais velhos também não tentavam aparecer atrapalhando o resgate de vítimas de enchentes, deslizamentos de terra, descarrilamentos, avalanches, naufrágios e invasões de nações adversárias. No máximo, tocavam violino enquanto o navio afundava.

Quanto aos de hoje, minha recomendação é que tomem doses cavalares de Leite de Magnésio. Quem sabe assim eles conseguem expelir longe de nós o amontoado de bostas que votam e aprovam entre uma e outra eleição. Aos eleitores que sofrem com os recorrentes alagamentos no Brasil, recomendo que evitem jogar lixo nas urnas. Simples assim. Não lembro mais de números. No entanto, descobri que envelheci quando comecei a ter facilidade em dar nomes às plantas. Pelo menos estou vivo.

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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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