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Ǫue fim levou meu amigo Liverpool? (Parte 3)

Da terra natal para a do Tio Sam

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Autor/Imagem:
Plínio Pavão - Foto Francisco Filipino

Conhecia uma banca na feira de artesanato da Praça da República, realizada todos os domingos desde meados dos anos 1950. Na verdade, o dono da banca era também proprietário de uma famosa loja de discos raros, nacionais e importados, e aos domingos expunha na feira algumas de suas raridades, mais como forma de marketing do que para obtenção direta de lucro, pois grande parte do público de lá era um pessoal jovem e alternativo. Liverpool se tornou seu amigo, era um cara muito honesto, e boa parte dos álbuns de sua coleção obteve com ele.

O dinheiro da venda correspondeu a mais ou menos uns 75% a 80% da avaliação do acervo em excelente estado de conservação, mas era uma importância bem significativa. Dava para comprar uma passagem de avião para um lugar distante e seguro, se manter por um bom tempo e ainda guardar boa parte, mas sua intenção era começar uma vida nova e arrumar, o quanto antes, um novo trabalho.

Transação fechada e recebido o dinheiro. Abandonou o emprego e a casa onde morava, sem deixar qualquer rastro. Todos sentimos sua falta, mas ninguém conhecia seu paradeiro. Aos poucos, fomos deixando de frequentar o local e nunca mais ouvimos falar nele. Nossa turma também foi se dispersando e guardei apenas a lembrança daqueles bons tempos. Finalmente, após 20 anos, de forma absolutamente fortuita, vim a conhecer as circunstâncias de seu desaparecimento e os inimagináveis acontecimentos posteriores.

Conforme me contou, assim que deixou, de forma súbita, o emprego, mudou-se para a cidade onde nasceu, Santo Antônio do Leverger, na região metropolitana de Cuiabá e terra natal do Marechal Rondon, distante 40 km da capital do MT. Foi para a casa da família, mãe, uma irmã e três irmãos, a quem não via desde quando, aos 16 anos, veio tentar a vida em São Paulo, embora se correspondesse com frequência e falava com todos por telefone uma ou duas vezes por mês.

Lá, recebeu, além de um abrigo seguro, todo apoio possível, inclusive estímulo para se internar em uma clínica de recuperação de drogaditos, conseguindo se reabilitar. Após esse período, não teve dificuldade em arrumar um emprego. O salário não era dos melhores, mas não tinha grandes despesas, assim, vivia modesta e confortavelmente.

Foi um período de aproximadamente onze anos em que desfrutou de uma vida saudável e bastante tranquila e, porque não dizer, feliz com o retorno ao lar, tendo deixado para trás os graves problemas que roubaram sua paz nos últimos tempos vivendo em São Paulo. Apesar de amar a grande metrópole, chegou a imaginar que não conseguiria sair vivo de lá, aos poucos, a cidade se transformou em um verdadeiro suplício.

Infelizmente, o destino lhe impôs um novo revés, em 1987 sua mãe foi diagnosticada com uma grave doença, levando-a em poucos meses. Diante da tragédia e por ser, entre os filhos, o mais próximo afetivamente dela, Michel entrou em profunda depressão e colocou na cabeça que precisava dar, mais uma vez, um novo rumo à vida.

Durante a longa estada na volta à sua cidade, dados os hábitos modestos adotados, preservou todo o restante do dinheiro obtido com a venda da coleção de discos em uma aplicação financeira, tendo gastado apenas com a compra da passagem aérea para Cuibá, as demais despesas da viagem e o pagamento da clínica de reabilitação; e ainda conseguiu economizar uma boa soma com as sobras dos vencimentos mensais. Dessa forma, avaliando já possuir quantia suficiente, resolveu realizar o sonho acalentado desde muito jovem, viver durante algum tempo nos Estados Unidos.

Vencidas as providências burocráticas, passaporte, visto, bilhete aéreo, câmbio de alguns dólares etc., malas prontas partiu em um voo de Cuiabá para o Rio de Janeiro e, de lá para sua mais nova aventura. Escolheu como destino o estado da Califórnia, presente em suas fantasias desde 1967, pouco tempo depois de chegar a São Paulo, sempre buscando estar bem-informado sobre as questões do mundo contemporâneo, em especial o fenômeno da contracultura e do verão do amor.

Acompanhou atento as notícias sobre o “Monterey Pop Festival” em 1967 e, claro, o Woodstok e as três edições do festival da Ilha de Wigth entre os anos de 1968 e 1970, na Inglaterra, palco do retorno de Bob Dylan, em 1969, e de uma das últimas apresentações de Jimmi Hendrix, em 1970, mesmo ano em que se apresentaram os brasileiros Caetano e Gil, exilados em Londres, de quem também era fã; mas escolheu o estado do oeste, por ter sido o epicentro do movimento hippie no distrito de Haight-Ashbury, em São Francisco, na segunda metade da década de 1960, representando a chave que abriu sua cabeça para compreender toda a transformação pela qual passava o mundo e os costumes naquela quadra da história.

O local escolhido para se fixar era Los Angeles, pois tinha um parceiro dos velhos tempos morando lá há vários anos. Edenilson, esse era seu nome, por meios não muito convencionais, havia obtido um green card e com isso conquistado situação bastante estável, permitindo acolhê-lo com hospitalidade e conforto. Conheceram-se em São Paulo, logo ao chegarem, ambos em 1966, e foram morar na mesma pensão. Edenilson era de Governador Valadares, MG, e embora tenham estabelecido uma grande amizade, logo se transferiu para o país da América do Norte, juntamente com alguns familiares.

O amigo, radicado no país dos gringos e totalmente aculturado, possuía um grande círculo de amizades, a proporcionar a Michel condições mais favoráveis de socializar, o que não era bicho de sete cabeças para ele, tendo em vista sua experiência de vida, sua comunicabilidade inata e dominar razoavelmente a língua, isso certamente o ajudaria a aprimorar a conversação e a conhecer melhor o país e seus costumes.

Nos primeiros meses, viajou para alguns lugares que também tinha interesse em conhecer, como Nova Yorque, Washington D. C., os Grandes Lagos, Chicago e, de lá, fazendo, com uma Harley Davison alugada, todo o percurso da Rota 66, chegando de volta à Califórnia por Santa Mônica. Porém, ao retornar para L. A., seu visto de turista já estava em vias de expirar, mas não tinha intenção de voltar tão cedo ao Brasil e passou a viver clandestinamente por lá.

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Leia a quarta parte (epílogo) do conto Ǫue fim levou meu amigo Liverpool? nesta quinta (03/09).

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