Curta nossa página


Alquimia

De mãos dadas com um dragão

Publicado

Autor/Imagem:
Edna Domenica - Texto e Foto

Talvez você espere que diga coisas sobre a minha vida. Mas eu não vou contá-las como quer. Sei que gosta de pessoas que contam suas superações: relatos lineares sobre perenes batalhas que se tornaram guerras vitoriosas pelo poder do grupo de ouvintes.

A vida me deu menos colo do que sonhei. Alguns amigos queridos me foram levados pela vida… Só ela sabe e tem seus motivos de fazê-lo. Outros me foram tirados pela morte… E dela ninguém quer saber (e por vários e legítimos motivos).

– Falemos de nascimento!

Vim para esse mundo sob um signo do horóscopo ocidental do elemento ar, sob um signo do horóscopo chinês relativo à água. Mas a vida me fez aprender com as tarefas de deitar raízes nas terras trabalhadas e de acender o fogo dos rituais do mister de ensinar. À revelia dos territórios de aprendizes estranharem minha natureza magistral afeita à água e ao ar.

Sei que relatos lineares acalmam a plateia… Histórias assim contadas são músicas de acalanto para o leitor enfarado que precisa vencer a insônia. São, no entanto, momentos de sínteses existenciais que me fazem pegar um lápis e registrar as descobertas…

(– Sobre a vida passada? – perguntará o leitor.)

Refiro-me às descobertas sobre a vida temporal em especial faceta: sem que se tenha por meta colocá-la linearmente como se fôssemos seres que aceitássemos viver cada processo como uma simples sucessão de: um começo, um meio e o fim.

O processo de criação é alquimia. Seu resultado almejado é transformar todo metal em ouro. A transformação na alquimia é interior e uma alteração ocorre, concomitante àquela.

Alteração significa ação do outro (alter) dentro de nós. A ação social é matéria prima da constituição do sujeito: é modificadora e gera crescimento.

A solidariedade espontânea é a verdadeira prática beneficente, pois constitui o sujeito: humaniza o ser. A solidariedade não se compromete com a cobrança e o aprisionamento.

A frieza, o fechamento, a ilusão, a imaginação inoperante, a inconsciência e a inconstância se dissipam na alegria do acolhimento.

É por esse movimento de tropismo que se dá a busca da luz, da novidade, da clareza, da conscientização…

O processo alquímico de encontro transforma o banal em preciosidade, transforma a busca interior em mudança social, transforma a busca em iluminação.

Esse processo que parece tão complexo faz parte de ações corriqueiras como as relativas à leitura.

O movimento de tropismo em direção ao encontro do leitor é busca processual cujo resultado é um livro. Mas um livro sem um leitor é um buscador sem meta: um dragão opaco, franzino, medroso e apagado.

Caro leitor (cara leitora), acenda as luzes da ribalta. Pegue o dragão pela mão, leve-o ao proscênio. Ateie o fogo… Inicie seu ritual de leitura… Afinal, só você pode fazer de um [ato simples como ler] algo fantástico como andar, confortavelmente, de mãos dadas com um dragão!

…………………………..

Edna Domenica é pedagoga, poetisa e cronista. O texto De mãos dadas com um dragão foi publicado em No ano do Dragão, Florianópolis: Postmix. 2012. Este texto faz parte da trilogia Alquimia, Inclusão e Superação.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.