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Legado de Ibaneis

De túneis ao Prato Cheio e o direito a ir de graça

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Autor/Imagem:
Pimenta Filho - Foto de Arquivo

Ao assumir o Palácio do Buriti em 1º de janeiro de 2019, Ibaneis Rocha encontra uma Brasília com grandes obras paradas, projetos que atravessavam administrações e regiões inteiras ainda convivendo com problemas básicos de drenagem, pavimentação e urbanização. Pouco mais de sete anos depois, ao assinar a renúncia em 28 de março de 2026, deixou o governo com um patrimônio político associado, sobretudo, a duas frentes: obras de infraestrutura e ampliação da rede de proteção social.

O balanço não deve ser confundido com uma relação apenas de inaugurações. Ao longo dos dois mandatos, o governo também retomou obras, destravou projetos concebidos anteriormente, contratou empreendimentos e deixou outros em execução. Por isso, para dimensionar seu legado, é necessário separar aquilo que efetivamente entregou daquilo que deixou encaminhado para seus sucessores.

A infraestrutura tornou-se a face mais visível dos governos Ibaneis. Uma das obras que melhor sintetizam o período é o Túnel Rei Pelé, em Taguatinga, inaugurado em 5 de junho de 2023. O projeto fazia parte das discussões de mobilidade do Distrito Federal havia anos. Sob Ibaneis, o processo foi destravado em 2019 e transformado em obra. O túnel recebeu investimento de aproximadamente R$ 275 milhões e passou a atender um fluxo estimado pelo GDF em mais de 135 mil veículos por dia.

Outro empreendimento foi o Viaduto do Recanto das Emas/Riacho Fundo II, inaugurado em março de 2023, depois de décadas de reivindicação dos moradores. O investimento informado foi de R$ 30,9 milhões, para um equipamento projetado para beneficiar cerca de 80 mil motoristas diariamente. Também entrou na conta o Complexo Viário Itapoã/Paranoá, com investimento global informado de R$ 95 milhões, além do Viaduto do Sudoeste, intervenções na Epig, ESPM, Sobradinho e diferentes acessos entre regiões administrativas.

Mas talvez a infraestrutura de bairro revele tanto sobre a administração quanto as grandes estruturas de concreto. Vale lembrar que Vicente Pires tornou-se uma das vitrines dessa política. A região acumulava havia anos problemas de alagamento, vias sem pavimentação adequada e ausência de redes suficientes para escoamento das águas da chuva. Segundo balanços oficiais, os investimentos na cidade desde 2019 chegaram à casa de meio bilhão de reais, envolvendo cerca de 300 quilômetros de vias e calçadas pavimentadas, 185 quilômetros de redes de drenagem, centenas de quilômetros de meios-fios e construção de lagoas de detenção.

Mesmo depois da saída de Ibaneis do governo, porém, havia serviço a concluir. Em maio de 2026, o GDF anunciava investimento adicional de R$ 50 milhões na última etapa das obras de infraestrutura urbana previstas para Vicente Pires. É um exemplo didático da divisão do legado: boa parte da transformação foi executada durante os dois mandatos de Ibaneis, enquanto o fechamento do projeto ficou para a administração de Celina Leão.

Outro território que ganhou atenção especial foi o Sol Nascente/Pôr do Sol. A região tornou-se oficialmente uma Região Administrativa em 2019. A partir daí, o GDF concentrou investimentos em drenagem, pavimentação, saneamento, escolas, creches, transporte e equipamentos sociais. Em balanço oficial, o governo estimou em mais de R$ 600 milhões o conjunto de investimentos destinado à cidade. Somente nas obras de urbanização, dados posteriores indicavam investimentos superiores a R$ 630 milhões desde 2019.

Foram entregues, entre outros equipamentos, creches, escola, restaurante comunitário e unidades habitacionais. A cidade recebeu ainda novas linhas e abrigos de ônibus, enquanto as obras de drenagem e pavimentação avançaram pelos diferentes trechos. Não estava tudo pronto quando Ibaneis deixou o Buriti. Parte da urbanização permanecia em execução, outra demonstração de que seu legado inclui tanto aquilo que ficou de pé quanto contratos e projetos herdados pela sucessora.

Outra obra estruturante foi o Drenar DF, concebido anos antes, mas retomado e destravado na administração Ibaneis. O programa foi estruturado para enfrentar os recorrentes alagamentos na Asa Norte e modernizar o sistema de captação das águas pluviais. O investimento informado para a principal etapa chegou a R$ 180 milhões. O projeto inclui galerias de grandes dimensões e reservatório destinado a armazenar temporariamente a água das chuvas, reduzindo a pressão sobre o sistema de drenagem. No conjunto do Distrito Federal, o GDF informou investimentos próximos a R$ 1 bilhão em obras destinadas ao escoamento de águas pluviais durante o período.

A outra marca foi colocar dinheiro na mesa das famílias. Se as obras de concreto deram visibilidade ao governo, os programas sociais deram capilaridade. Uma das principais criações foi o Cartão Prato Cheio, lançado em 2020 durante a pandemia da covid-19 e posteriormente transformado em política permanente de segurança alimentar.

Em maio de 2025, o programa completou cinco anos contabilizando mais de 560 mil famílias atendidas ao longo de sua existência, considerando entradas e retornos ao benefício. O governo também ampliou o período de concessão, o público e posteriormente reajustou o valor do benefício. O Prato Cheio somou-se ao DF Social, ao Cartão Gás, ao Cartão Material Escolar, Cartão Creche e a diferentes benefícios destinados à população de baixa renda.

Em junho de 2024, levantamento oficial apontava que os programas sociais implementados ou operados pelo GDF desde 2019 tinham alcançado mais de 394 mil famílias, estimadas pelo governo em mais de 1,5 milhão de pessoas, com R$ 1,9 bilhão em recursos distribuídos naquele período. Naquele balanço, somente o Prato Cheio havia recebido aproximadamente R$ 723,4 milhões. O DF Social acumulava mais de R$ 278 milhões em repasses e o Cartão Gás, mais de R$ 118 milhões.

Os números cresceram posteriormente e, portanto, representam fotografias de momentos determinados da administração, e não o balanço financeiro definitivo dos sete anos de governo. Ibaneis também resgatou e ampliou a importância dos restaurantes comunitários como braço da política de segurança alimentar. Durante sua administração, houve expansão dos horários de atendimento e abertura ou planejamento de novas unidades, além da política de refeições subsidiadas.

A estratégia combinava transferência direta de renda por meio dos cartões com fornecimento de alimentação pronta a preços reduzidos nos restaurantes comunitários. No programa para o segundo mandato, o governo previa construir cinco novas unidades, além de ampliar a rede de Cras e Creas.

Na saúde, a situação é mais híbrida. Durante o primeiro mandato, o GDF contabilizou a entrega de sete Unidades de Pronto Atendimento e dez Unidades Básicas de Saúde, além de ampliações nos hospitais regionais de Ceilândia e Samambaia. O segundo mandato teve como objetivo uma expansão bem mais ambiciosa: hospitais, novas UPAs, UBSs e Caps.

Nem todo esse pacote foi concluído antes da renúncia. Entre os empreendimentos preparados ou iniciados estavam os hospitais do Recanto das Emas e Clínico-Ortopédico do Guará, além de processos relativos às unidades de São Sebastião e Gama e novas UPAs em diferentes regiões administrativas. É, portanto, uma área na qual a divisão entre entrega e herança fica particularmente evidente. Ibaneis ampliou fisicamente a rede, mas deixou uma segunda onda de grandes investimentos hospitalares para ser concluída sob Celina Leão.

Co Ibaneis, a infraestrutura educacional também foi ampliada. Em diferentes momentos da gestão foram entregues escolas, creches e salas de aula, além de reformas em unidades antigas. Em 2024, o governo informava ter nomeado 3,4 mil novos profissionais e classificava aquele processo como a maior nomeação da história da rede naquele momento.

O governo também apostou no Cartão Material Escolar. Até 2024, os investimentos acumulados desde 2019 somavam R$ 171,7 milhões, e naquele ano o benefício alcançava mais de 175 mil estudantes. E o Cartão Creche complementou a política de expansão das vagas da primeira infância.

Do outro lado das ações, um símbolo importante apareceu na cultura. Fechada por anos, a Sala Martins Pena, do Teatro Nacional Cláudio Santoro, voltou ao circuito cultural durante a gestão Ibaneis. A recuperação do restante do complexo, entretanto, foi dividida em novas etapas. Ibaneis deixou encaminhada a continuidade das intervenções nas salas Villa-Lobos e Alberto Nepomuceno e em outros espaços do edifício. Assim, o Teatro Nacional resume novamente a lógica de seus dois mandatos: uma parte importante foi recuperada e devolvida à população; outra continuou em obras.

Entre as realizações que podem ser atribuídas como efetivamente concluídas durante seus mandatos, aparecem o Túnel Rei Pelé, em Taguatinga; viaduto Recanto das Emas/Riacho Fundo II; complexo Viário Itapoã/Paranoá; diferentes viadutos e intervenções no sistema rodoviário; grande parte das obras de infraestrutura de Vicente Pires; etapas importantes da urbanização do Sol Nascente/Pôr do Sol; escolas, creches e equipamentos comunitários; sete novas UPAs e dez UBSs contabilizadas no primeiro ciclo de expansão da saúde; expansão dos hospitais de Ceilândia e Samambaia; criação do Cartão Prato Cheio; implantação do DF Social; Cartão Gás; ampliação do Cartão Material Escolar e do Cartão Creche; expansão da política de restaurantes comunitários; retomada da Sala Martins Pena do Teatro Nacional; projetos de urbanização, drenagem, calçadas, iluminação pública e pavimentação espalhados pelas regiões administrativas.

Entre os projetos em andamento, contratados, licitados ou estruturados durante sua passagem pelo governo estavam hospitais do Recanto das Emas e do Guará; outros projetos hospitalares, incluindo São Sebastião e Gama; novas UPAs e UBSs; continuidade do Drenar DF; últimas etapas de infraestrutura de Vicente Pires; conclusão da urbanização do Sol Nascente/Pôr do Sol; novas etapas da reforma do Teatro Nacional; BRT Norte, concebido como grande ligação por transporte coletivo entre o Plano Piloto e Planaltina; expansão do sistema metroviário, especialmente em Samambaia; projetos rodoviários e de mobilidade contemplados pelo Novo PAC.

BRT Norte, expansão do metrô e outras intervenções de mobilidade chegaram inclusive a integrar projetos selecionados para receber recursos federais. São obras que Ibaneis poderá reivindicar politicamente como iniciativas de sua administração, mas cuja entrega não pode ser contabilizada integralmente em seu governo.

É certo que balanço de Ibaneis Rocha não cabe apenas numa fotografia de inaugurações. Entre janeiro de 2019 e março de 2026, sua administração consolidou uma combinação pouco usual na política brasiliense: grandes intervenções urbanas de um lado e transferência direta de renda do outro.

O Túnel de Taguatinga é provavelmente o maior monumento físico desse período. O Prato Cheio, sua principal marca social. Entre os dois extremos estão quilômetros de drenagem, asfaltamento e calçadas; viadutos; escolas; creches; unidades de saúde; restaurantes comunitários; recuperação de equipamentos públicos e programas de renda.

Também ficaram promessas incompletas, obras que atravessaram a porta do gabinete junto com a nova governadora e projetos que dependerão de dinheiro, execução administrativa e decisões políticas para se transformarem em realidade.

É justamente aí que a história política de Ibaneis pode voltar a encontrar seu passado administrativo. Depois de governar Brasília durante mais de sete anos, uma eventual volta às urnas tende a permitir que ele apresente esse conjunto como cartão de visitas. Seus adversários, naturalmente, poderão cobrar o que não ficou pronto, custos, resultados e problemas surgidos ao longo da administração.

Entre o concreto entregue e as fundações deixadas para a sucessora, porém, está o material a partir do qual será travada essa disputa de memória. O que se diz no meio político é que Ibaneis deixou o Buriti e o debate sobre aquilo que deixou em Brasília está apenas começando.

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