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Ǫue fim levou meu amigo Liverpool? (Epílogo)

De volta ao inferno

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Autor/Imagem:
Plínio Pavão - Foto Francisco Filipino

Liverpool, com a experiência adquirida desde a adolescência, quando saiu de casa pela primeira vez, vivenciando as mais diversas situações, enfrentando dificuldades e até mesmo correndo risco de morte, se sentia cada vez mais à vontade no novo ambiente, afinal, adaptar-se a diferentes lugares não era problema para ele, mesmo no papel de imigrante ilegal.

Obteve um emprego na sua profissão em um salão unissex, cuja loja possuía, na parte posterior, um dormitório com banheiro exatamente para acomodar um eventual funcionário forasteiro, alugado por um baixo valor pelo proprietário do negócio.

A vida seguia e ele já tinha, além do amigo Edenilson com seu círculo de relacionamentos, um grupo próprio, pois já estava totalmente fluente no idioma e nunca teve dificuldade em interagir com quem quer que fosse; e era justamente aí onde morava o perigo. As pessoas com quem se relacionava eram seus clientes do salão e as frequentadoras dos mesmos locais onde costumava ir: bares, lojas de shopping, cinemas etc.

Entre os novos companheiros havia usuários de drogas, algo totalmente incorporado à paisagem local. Assim, passou a ter contato novamente com as substâncias as quais havia jurado a si mesmo nunca mais experimentar e, durante algum tempo, de fato, conseguiu manter a promessa, resistindo à tentação.

Certo dia, no entanto, aceitou um convite para uma festa nada convencional onde rolaria muito sexo, drogas e rock ‘n’ roll. Depois de tomar várias doses de bebidas e desfrutar os prazeres que a noite oferecia, acreditando poder visitar novamente o mundo das alucinações apenas como forma de curtir totalmente o momento e no dia seguinte retomar sua vida virtuosa, aspirou algumas carreiras das muitas disponíveis.

Contudo, não esperava haver dentro de si um resquício daquele infortúnio que o molestou anos atrás e, com isso, ter o vício reativado. Por coincidência, embora em circunstâncias diferentes, novamente quando se achava trabalhando na sua profissão, com a vida estabilizada, de forma gradual, a partir daquela noite, voltou a usar a cocaína com certa regularidade.

Com o tempo essas recaídas se davam com maior frequência e ele passou a experimentar outras coisas. Já não recusava nada, inclusive as injetáveis, com ainda maior voracidade do que no passado. Logo começou a descuidar do lado profissional, deixando de cumprir compromissos assumidos, e acabou sendo demito, perdendo também, como consequência, a moradia.

Para sustentar o vício e pagar o aluguel de um outro local para residir, acabou por comprometer o restante de suas economias e como não conseguia arrumar um novo trabalho, teve dificuldade para pagar o aluguel. Por outro lado, Edenilson, dada a situação em que Michel se encontrava, embora quisesse ajudar, não tinha condição de abrigá-lo novamente, pois tinha dois filhos pequenos e a mulher e, naturalmente, o convívio dele com a família, naquelas condições, seria algo indesejável.

Não demorou para ser despejado do imóvel por falta de pagamento, indo para a rua com seus poucos objetos e roupas amontoados em uma velha mala. Foi então que Liverpool desceu ao mais baixo degrau da dignidade humana, indo “habitar” o Skid Row, bairro de Los Angeles, que desde aquela época, abriga, a maior cracolândia do país.

Perambulava pelas ruas sujas e fedorentas, a procura dos fornecedores da “pedra”, dormia pelas calçadas, se alimentando, muitas vezes, do que encontrava no lixo, pois, embora o amigo levasse, pelo menos uma vez por dia, uma refeição, raramente o encontrava. Fazia suas necessidades pelos cantos, sem local para tomar um banho e sem poder trocar de roupas, até porque não se lembrava onde havia deixado a mala contendo seus modestos pertences.

Edenilson, angustiado com a situação e de tanto se preocupar, teve uma ideia: promover uma vaquinha entre todos os conhecidos a fim de arrecadar uma quantia suficiente para adquirir uma passagem aérea para mandá-lo de volta ao Brasil. Ligou para os irmãos, combinando com eles de irem recebê-lo no aeroporto do Galeão para levá-lo de volta a Santo Antônio do Leverger e cuidarem novamente dele.

Não teve dificuldade em conseguir, todos gostavam de Liverpool, pois, quando sóbrio, era, de fato, uma pessoa gentil e agradável. De posse do valor necessário, Edenilson adquiriu a passagem para um voo direto e, no dia do embarque, convenceu o proprietário, a permitir que ele tomasse um banho nas dependências do salão de cabelereiro onde trabalhara e arrumou roupas novas para ele, pagou-lhe uma boa refeição e o levou pessoalmente ao aeroporto, certificando-se de correr tudo certo com o embarque.

No horário previsto, o voo pousou no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro. Conforme combinado, os irmãos o esperavam e receberam-no com festa, mas ele um tanto ressabiado, reagiu de forma mais ou menos fria, talvez indicando engendrar alguma trama, mas ninguém se deu conta desse possível plano mirabolante.

Fato é que, chegando em sua terra natal, no primeiro descuido por parte dos familiares, fugiu de casa e com uma pequena sobra de dinheiro, conseguiu embarcar em um ônibus de volta à capital do estado de São Paulo, se juntando a grupos de pessoas em situação de rua em diferentes pontos da cidade, até chegar ao local em que casualmente o encontrei.

Profundamente consternado, não só por sua condição deplorável, assim como por toda sua história de vida, tentei ajudá-lo a sair daquela situação e buscar um novo processo de reabilitação, mas não aceitou. Depois daquele dia, voltei a falar com ele por duas vezes nas semanas seguintes, mas em vão, dizia não ter mais nenhuma ambição na vida e que passaria seus últimos dias vivendo pelas ruas.

Tentei encontrá-lo uma terceira vez, seus antigos parceiros me informaram que ele havia partido para buscar um outro canto de rua para se instalar e nunca mais consegui achá-lo. Segundo me contaram, há poucos dias antes de partir descobrira estar contaminado com o HIV, praticamente uma sentença de morte naqueles idos.

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