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Afagos e farpas

Debate na Band abre caminho para uma disputa acirrada em Brasília

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@donairene13 - Divulgação

O primeiro debate entre os candidatos ao Governo do Distrito Federal deixou uma coisa bastante clara: a campanha começou de verdade. Neste domingo, 9 de agosto, a Band colocou frente a frente Kiko Caputo (Novo), Leandro Grass (PT), Paula Belmonte (PSDB), Ricardo Cappelli (PSB), Celina Leão (Progressistas) e José Roberto Arruda (PSD).

No primeiro bloco, os candidatos fizeram perguntas entre si. No segundo, responderam a perguntas dos eleitores. No terceiro, voltaram ao confronto direto. No fim, cada um teve alguns minutos para resumir suas intenções e tentar deixar uma última mensagem ao eleitor.

Quem esperava um encontro morno não precisou esperar muito para perceber que não seria assim. O debate começou quase gentilmente, com Celina perguntando a Paula Belmonte como é ser mulher na política. Paula poderia ter respondido com alguma reflexão sobre os desafios enfrentados pelas mulheres. Preferiu partir para cima da adversária. A cordialidade acabou ali.

E, a partir daquele momento, Celina virou o alvo preferencial da noite.

Não chega a ser surpresa que Celina tenha apanhado mais. Ela é a governadora. Quem ocupa a cadeira principal do Buriti tem a máquina pública para mostrar realizações, mas também carrega nas costas tudo aquilo que não funciona.

E existe um problema enorme rondando sua candidatura: o BRB.

O banco apareceu tantas vezes que quase poderia ter ganhado uma bancada no estúdio. Praticamente todos os adversários cobraram explicações sobre sua situação financeira e sobre a falta de informações suficientemente claras a respeito de suas contas.

Celina tentou destacar as medidas adotadas para salvar e fortalecer o BRB. O problema é que faltou responder à pergunta mais simples: qual é, afinal, o tamanho real do rombo?

Enquanto essa resposta não aparece de maneira clara, os adversários têm um campo enorme para explorar.

Arruda verbalizou talvez a acusação mais pesada da noite ao dizer, em resumo, que o governo estaria empurrando o problema com a barriga para que o BRB só quebrasse depois da eleição. Evidentemente é uma acusação política, não um fato comprovado. Mas colocou no debate uma desconfiança que certamente existe entre muitos brasilienses: será que ainda existe alguma coisa importante sobre o banco que o eleitor não sabe?

Celina também tentou durante todo o debate se afastar de Ibaneis Rocha. É uma missão complicada. Afinal, ela foi vice dele. Não dá para participar do governo durante anos e, quando chega a eleição, agir como se tivesse acabado de chegar ao Buriti.

Em alguns momentos, Celina tentou deixar o confronto mais leve. Chegou a dizer que daria uma bota de presente para Paula Belmonte. Talvez tenha sido uma tentativa de humor. Mas provavelmente o BRB vai exigir muito mais do que botas para sair do centro desta campanha.

Paula Belmonte mostrou logo na primeira oportunidade que não pretendia participar de um chá da tarde.

Celina ofereceu uma pergunta relativamente amigável sobre mulheres na política e Paula respondeu atacando politicamente a governadora. Foi praticamente o sinal para o início das hostilidades.

A partir dali, Paula manteve uma postura bastante crítica em relação ao governo e também explorou a situação do BRB. Ela sabe que precisa se apresentar como alternativa e que, para isso, precisa confrontar quem está no poder.

Ao mesmo tempo, Paula e Celina travaram outra disputa interessante: quem consegue conversar melhor com as mulheres.

As duas citaram as mães atípicas e defenderam políticas públicas específicas para elas. Não é coincidência. O voto feminino será decisivo, e as candidatas sabem disso.

Resta saber se, ao longo da campanha, esse diálogo será transformado em propostas detalhadas ou permanecerá apenas nas declarações de intenção.

Cappelli ouviu mais de uma vez a tentativa de colocá-lo no papel de “forasteiro”. É um ataque eleitoral previsível. A estratégia é simples: apresentar o adversário como alguém que chegou agora e não conhece Brasília.

Mas existe um problema nessa narrativa: pode-se discutir a ligação de Cappelli com o DF, mas é difícil dizer que ele não possui experiência de gestão pública.

Ele fez questão de lembrar sua atuação como interventor federal na segurança pública do Distrito Federal depois do 8 de janeiro. Foi justamente em um dos momentos mais delicados da história recente de Brasília que Cappelli ganhou projeção nacional.

Também foi um dos candidatos mais provocadores da noite. Chamou Celina de “camaleoa”, aproveitando inclusive o sobrenome Leão e a imagem de “leoa” utilizada pela própria governadora. A provocação serviu para questionar as mudanças de posição e alianças políticas de Celina ao longo dos anos, incluindo sua relação com governos anteriores e sua condição de vice de Ibaneis.

Pode até ser um trocadilho meio infame. Mas cumpriu seu objetivo: provavelmente virou corte para as redes sociais.

Aliás, Cappelli e Celina pareciam disputar também um campeonato paralelo de quem mencionava mais a internet. Várias vezes anunciaram que determinado vídeo, documento ou informação seria publicado nas redes.

Sinal dos tempos. O candidato já não debate apenas com o adversário diante dele. Debate pensando no vídeo de 30 segundos que sua equipe publicará cinco minutos depois.

Se experiência em debate eleitoral contasse ponto, José Roberto Arruda provavelmente teria saído na frente. Ele conhece o jogo.

Cumprimentou as mulheres, falou diretamente para a câmera, resumiu propostas e administrou bem o tempo. Décadas de política profissional aparecem nesses momentos. Arruda sabe como funciona um debate e sabe conversar com o eleitor pela televisão.

Foi também um dos que mais apresentou propostas concretas na área da educação, falando inclusive em contratação de professores. Mas houve algo curioso.

Considerando toda a trajetória de Arruda e suas pendências e controvérsias judiciais, seria natural imaginar que passaria boa parte do debate respondendo sobre isso. Não aconteceu. Houve algumas referências indiretas, mas tão indiretas que provavelmente uma parcela dos eleitores nem entendeu exatamente do que os adversários estavam falando.

Talvez os demais candidatos tenham perdido uma oportunidade. Ou talvez tenham preferido concentrar fogo em quem atualmente ocupa o governo.

Arruda, agradecido, aproveitou. E ainda encontrou espaço para atacar Celina justamente no assunto mais desconfortável da noite: o BRB. Ao acusar o governo de empurrar o problema para depois da eleição, colocou a governadora na defensiva e deu voz a uma suspeita que circula entre muitos eleitores.

Pode-se gostar ou não de Arruda. Mas experiência política ele tem de sobra. E isso ficou evidente no debate.

Leandro Grass fez uma escolha bastante clara: não fugiu do PT nem tentou esconder seus aliados. Ao contrário, defendeu os governos de Cristovam Buarque e Agnelo Queiroz, lembrando obras e programas sociais realizados durante as administrações petistas no Distrito Federal. E também saiu em defesa do governo Lula.

Um dos momentos mais interessantes aconteceu quando Grass contestou Celina sobre os reajustes concedidos às forças de segurança do DF. Ele fez questão de lembrar que os aumentos salariais dependem do governo federal e foram concedidos durante o governo Lula. Foi uma forma de dizer: Celina não pode colocar essa medalha sozinha no peito.

A estratégia de Grass parece bastante definida. Ele vai tentar aproveitar a força eleitoral de Lula no Distrito Federal, defender o legado dos governos petistas e, ao mesmo tempo, apresentar sua candidatura como alternativa ao atual grupo que comanda o Buriti.

O desafio será convencer o eleitor a olhar para os governos anteriores do PT no DF lembrando das realizações que Grass quer destacar, e não apenas das críticas acumuladas ao longo dos anos.

Kiko Caputo tinha uma tarefa fundamental nesse primeiro debate: apresentar apresentar a si mesmo, mas nem sempre conseguiu. Em alguns momentos pareceu mais interessado em apresentar Romeu Zema.

O governador de Minas Gerais virou uma espécie de cartão de visitas do candidato do Novo. É compreensível que Kiko queira utilizar a principal liderança nacional de seu partido como exemplo, principalmente porque precisa tornar sua própria candidatura conhecida.

Mas existe um limite, porque Zema não é candidato ao Governo do Distrito Federal. E alguém também precisa avisar ao Novo que o governo Zema está longe de ser uma unanimidade como exemplo de boa administração. Fora da bolha de simpatizantes do partido, existem muitas críticas à gestão mineira.

No fim das contas, recorrer tanto a Zema acabou revelando justamente uma fragilidade de Kiko: ainda há pouco de sua própria trajetória política e administrativa conhecido pelo grande público. Para os próximos debates, talvez seja melhor falar menos de Minas Gerais e um pouco mais de Brasília.

Se alguém perguntar qual foi o principal assunto do primeiro debate ao GDF, não é difícil responder: BRB. O banco pairou sobre praticamente todos os blocos. Paula falou. Cappelli falou. Arruda falou. Grass falou. Celina respondeu. E quanto mais se falava, mais evidente ficava que ainda existem perguntas importantes sem respostas claras.

Esse será um problema enorme para Celina se a situação não for esclarecida rapidamente. Porque existe uma regra básica na política: quando faltam informações, sobram versões.

Enquanto o balanço e a real dimensão da situação financeira do BRB não forem apresentados de forma suficientemente clara para a sociedade, cada adversário preencherá esse espaço com sua própria narrativa. E dificilmente alguma delas será favorável ao governo.

Outra coisa ficou evidente durante o debate: Celina quer ser Celina. O problema é convencer o eleitor de que ela não é simplesmente a continuidade de Ibaneis. Ela foi vice-governadora. Participou da administração. Fez parte do mesmo grupo político. Portanto, é legítimo que seja cobrada pelas decisões tomadas durante esse período.

Agora, como governadora e candidata, precisa fazer uma operação política delicada: aproveitar aquilo que considera positivo do governo e se afastar daquilo que pode lhe causar desgaste. Os adversários obviamente não vão facilitar.

Talvez uma das imagens mais interessantes do debate tenha sido a quantidade de referências às redes sociais. Especialmente Celina e Cappelli pareciam conversar simultaneamente com dois públicos: quem assistia à Band e quem veria os cortes do debate posteriormente pelo celular.

“Vou colocar nas minhas redes.”

“Está nas minhas redes.”

“Depois vocês podem conferir.”

Esse tipo de frase apareceu várias vezes.

É a política de 2026.

Antes, um candidato precisava ganhar o debate. Agora precisa também produzir o melhor corte, o melhor meme e o vídeo que consiga circular no WhatsApp, Instagram, TikTok e X.

Celina oferecendo uma bota para Paula e Cappelli chamando Celina de camaleoa provavelmente sobreviverão muito mais tempo nas redes do que algumas propostas importantes apresentadas durante a noite. Não sei se isso melhora o debate público. Provavelmente não. Mas é assim que a política funciona atualmente.

E quem ganhou? É sempre difícil dizer quem “ganhou” um debate. Normalmente essa resposta depende muito mais da preferência política de quem assistiu do que propriamente do desempenho dos candidatos. Mas algumas impressões ficaram.

Arruda mostrou a maior desenvoltura eleitoral e conseguiu falar bastante de propostas, especialmente de educação. Cappelli foi combativo e conseguiu utilizar sua experiência administrativa como defesa diante dos ataques. Grass cumpriu o papel de defender o legado petista e o governo Lula. Paula mostrou disposição para o confronto. Kiko ainda precisa explicar melhor quem é Kiko, em vez de explicar quem é Zema.

E Celina? Ela sobreviveu. Como governadora, entrou no estúdio com um alvo enorme nas costas e passou boa parte da noite respondendo ataques. Era previsível. E continuará sendo assim nos próximos debates. O problema para ela é que existe uma diferença entre ataques políticos comuns e perguntas que precisam objetivamente de respostas. A situação do BRB pertence ao segundo grupo.

O primeiro debate terminou com cada candidato apresentando sua mensagem final e tentando resumir o governo que pretende fazer. Mas talvez o que tenha ficado mais evidente seja que teremos uma campanha dura no Distrito Federal.

Há candidatos experientes, há assuntos espinhosos, há um governo que precisa prestar contas e há um banco público que provavelmente continuará ocupando o centro da eleição enquanto suas contas não forem devidamente esclarecidas.

E, depois deste domingo, uma coisa parece certa: se alguém imaginava uma campanha tranquila pelo Palácio do Buriti, o primeiro debate tratou de acabar com essa ilusão.

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