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Sem freios nem contrapesos

Dedé, o compulsivo-impulsivo

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Autor/Imagem:
J. Emiliano Cruz - Foto Francisco Filipino

Verborrágico, prolixo ou tagarela? Denis, apelidado desde a infância de Dedé, era tudo isso e mais um pouco.

— Dedé, quem fala muito dá bom dia a cavalo, disse-lhe o colega Maurício, após ouvir (im)pacientemente uma minipalestra sobre a importância da empatia nas relações profissionais.

— Mas então você concorda que “gentileza gera gentileza”, não é mesmo?

— Claro que concordo, mas não precisa viajar na maionese para chegar ao ponto!

Segundo os colegas mais chegados (ele não tinha amigos), Dedé era movido por uma terrível compulsão. Falava fora de hora tudo que era desnecessário e irrelevante apenas pela necessidade de se fazer notar a todo custo.

Sempre que alguém tentava ensinar-lhe uma novidade ou explicar alguma coisa acerca da atividade profissional, respondia abruptamente:

— Já sei, isso já sei!

Mais problemáticas ainda eram algumas das suas atitudes atabalhoadas e decisões impensadas no campo sentimental-amoroso. Também nesse quesito, Dedé era impulsivo-compulsivo!

Há dois anos estava noivo de Heloisa, uma morena controladora, turbulenta e passional.

— Se aceitou namorar com o Dedé, ela também deve ter um parafuso solto, comentavam à boca pequena seus confidentes, no caso, suas vítimas de demorados desabafos diários e chorosas lamentações recorrentes.

— Você não acha um absurdo, Jeferson? Sem mais nem menos, do nada, ela começa a me tratar mal!

— Então, Dedé, você tem que pensar se vocês dois são compatíveis, respondia Jeferson, seu parceiro de trabalho mais próximo.

— Pois é, a gente se dá bem na cama, mas ela é muito chata e me cobra coisas sem sentido.

— Sim, a cama é importante, mas ocupa apenas 5% do tempo do relacionamento, se tanto.

Seguindo o protótipo cultural do homem hétero-patriarcal-machista brasileiro, Dedé praticava com afinco a filosofia “um homem de verdade deve ter matriz e filiais” ou “o homem que não está enrolado, não está feliz”.

Além da noiva, havia a dona do salão de cabeleireiros de Moema, a proprietária da loja de informática da Casa Verde, a vizinha do 7º andar e outras intercorrências eventuais.

Como o mundo é cheio de mistérios, sabe-se lá por que cargas d’água a futura sogra gostava dele.

— Dedé, você não acha que já está na hora de definir a data do casamento? Você e a Heloisa já não são crianças.

Tremendo na base ao ouvir a assustadora palavra “casamento”, Dedé enrolou, tergiversou, resistiu, mas, no fim da confabulação, cedeu. Dona Virginia era osso duro.

Após conversar com Heloisa, decidiram marcar o enlace para dali a três meses. Ele, pessoalmente, após muito regatear no custo, formalizou a realização da cerimônia religiosa com o padre Pedro na tradicionalíssima igreja de Moema.

Foi aí que as compulsões de Dedé se avolumaram drasticamente. Falava mais do que normalmente, acordava sobressaltado, lamentava-se por quase tudo e reclamava do mundo incansavelmente.

Nesse descompasso acelerado, começou a frequentar mais assiduamente as “filiais”. Incrivelmente, como se o seu dia somasse 48 horas, buscou ainda outros braços noturnos consumindo mais do que nunca o “santo azulzinho”, expressão de sua própria lavra.

Inevitavelmente, tal maratona desatinada trouxe na sua esteira ainda mais desacertos com a noiva. Jeferson, o parceiro profissional, o mais próximo do que Dedé tinha de um amigo, foi uma das vítimas marginais do tiroteio.

— Jeferson, preciso que você seja meu álibi para ontem à noite.

— Como assim?

— Vou ligar para Heloisa e depois te passar o celular. Confirme que ontem estávamos trabalhando em uma missão sigilosa e emergencial.

— Eita, Dedé, sei não… não vai dar certo!

— Vamos, me quebra esse galho. Vou ligar agora, seja convincente!

Jeferson balançou a cabeça e, desalentadamente, falou:

— Seja o que Deus quiser!

— Heloisa, antes de falarmos, vou passar o telefone para o meu parceiro, Jeferson. Ele vai te falar sobre ontem à noite quando não pude atender as tuas chamadas.

— Olá, como vai, Heloisa? Então, ontem à noite o Dedé e eu estávamos em uma missão que exigia que não falássemos ao celular com ninguém…

— Pode parar de mentir, seu salafrário! Você também deve ser um malandro mulherengo como ele!

Devolvendo o aparelho para o parceiro, um constrangido Jeferson balbuciou:

— Dedé, não deu certo…

Após meia hora de confabulação inconclusa com a noiva enfurecida, Dedé se desculpou com o acabrunhado colega:

— Desculpa a grosseria da minha noiva, amigo! Hoje passo na casa dela e resolvo tudo isso.

No entanto, nada foi resolvido. Ao contrário, depois de uma incandescente discussão entre os noivos, Heloisa retirou-se aos gritos para o seu quarto. Irritado, Dedé comunicou à dona Virginia:

— O casamento está desfeito, amanhã vou cancelar a cerimônia na igreja!

Atônita, dona Virgínia tentou contemporizar:

— Não faça isso meu filho, ela age assim porque te ama!

— Eu também amo Heloisa, dona Virginia, mas a coisa sempre acaba assim… Ferro no quibe do Denis!

Após ouvir do padre Pedro que o contrato não poderia mais ser desfeito e que teria que pagar o custo do aluguel da igreja, o humor de Dedé atingiu o seu nível mais baixo.

— Não vou pagar nada para esse padre vigarista, vamos discutir isso na Justiça!

Jeferson tentava acalmar o parceiro:

— Calma, Dedé, assim você vai ter um colapso cardíaco.

— Hoje vou sair com uma ex-colega de faculdade, preciso de uma mulher nova para recuperar o prazer de viver!

E assim aconteceu, depois de jantarem e ingerirem muito vinho, Dedé e a ex-colega rumaram para um motel.

Passados dois meses do rompimento com Heloisa, Dedé parecia ter superado a fase mais crítica da sua crise existencial, ou seja, de forma convicta, voltou a ser inconveniente e espaçoso no nível habitual.

Todavia, repentinamente, o conquistador inveterado recebeu uma notícia bombástica: iria ser pai.

— Não é possível, Jeferson! Tomei todos os cuidados, isso só pode ser golpe da Marisa… e, ainda por cima, ela é casada.

— Se você acha isso, peça um exame de DNA. Vocês continuaram a se ver nesse meio-tempo?

— Não, foi apenas aquela noite, sexo casual mesmo!

— Situação complicada, parceiro…

Após a devida comprovação técnica-judicial da paternidade, não sem muito praguejar pelo seu “descuido”, Dedé finalmente assimilou a situação. Não obstante, já parcialmente recuperado do trauma, logo fez a fila andar.

— Jeferson, agora sim conheci uma pessoa que me entende de verdade! Estou noivo de novo, o nome dela é Jussara, ela é separada e tem dois filhos.

Disfarçando um sorriso de canto de boca, Jeferson replicou:

— Meus parabéns, parceiro, então agora vai!

Porém, o destino preparou um apocalipse para a inacreditável trajetória do afoito impulsivo-compulsivo: o falecimento da mãe, há muitos anos, viúva.

Seja por convite consciente ou inconsciente de Dedé ou por mero conhecimento da notícia e de modo próprio, no velório compareceram todas as “matrizes” e “filiais” do conquistador: Heloisa (a ex-noiva) e sua mãe, dona Virginia, Marisa (a grávida), Jussara (a atual noiva), Lúcia (a dona do salão de cabeleireiros), Sandra (a proprietária da loja de informática), Jurema (a vizinha do 7º andar) e mais algumas “amigas” eventuais.

Alheio ao climão potencialmente explosivo incrustado no ambiente e, pesaroso pela passagem da mãe, Dedé fazia as apresentações formais de forma inacreditavelmente desassombrada:

— Minha ex-noiva, minha ex-futura-sogra, a futura mãe do meu filho, minha noiva, minha ex-namorada, minha amiga…

Mesmo que a pouca sanidade que lhe restasse pudesse ser definitivamente comprometida após aquele inusitado conclave, Dedé, o compulsivo, vivenciava o seu momento de glória: despertou curiosidade e uma ponta de inveja em um espírito ilustre que, atraído pela situação, pairava sobre a cerimônia fúnebre: Giácomo Girolamo Casanova.

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J. Emiliano Cruz [Instagram Jorge23215] é funcionário público federal, escritor e historiador, autor da coletânea de contos “A FELICIDADE E OS RISÍVEIS AMORES DE TODOS NÓS”, disponível no link da Estante Virtual:
.A felicidade e os risíveis amores de todos nós – UmLivro | Estante Virtual

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