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Delação de Vorcaro na PF faz sumir o Rivotril

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Autor/Imagem:
Arimathéia Martins - Foto de Arquivo

Com as devidas vênias — políticas, jurídicas, eclesiásticas e até pentecostais — o que se desenha nos subterrâneos de Brasília não é uma crise. É um abalo sísmico com potencial de rearranjar placas tectônicas da República.

A delação que se anuncia de Daniel Vorcaro, já tratada nos bastidores como inevitável, deixou de ser um rumor de corredores para se tornar um fantasma que atravessa gabinetes, tribunais, redações e até púlpitos. Não há ideologia que sirva de escudo quando o que está em jogo é a sobrevivência.

O personagem central, agora sob custódia mais “qualificada”, deixou para trás o barulho metálico da rotina carcerária comum e passou a orbitar um ambiente onde cada palavra tem peso de prova e cada silêncio pode custar caro. Traduzindo: saiu do improviso e entrou no roteiro. E que roteiro.

Nos bastidores, a avaliação é uníssona: o que vem por aí não é apenas explosivo — é nitroglicerina pura, daquelas que não admitem erro de manuseio. Uma delação que não mira apenas alvos isolados, mas pode atingir, de uma só vez, figuras distribuídas por todo o espectro ideológico. Situação rara, quase pedagógica: quando todos têm algo a temer, ninguém dorme.

Não por acaso, cresce nos bastidores e nas farmácias o consumo de ansiolíticos. Brasília virou uma cidade em estado de pré-insônia institucional. Há relatos de prateleiras esvaziadas, agendas travadas e reuniões sussurradas. A capital do poder transformou-se, por ora, na capital da apreensão.

Enquanto isso, parte da imprensa militante — sobretudo a que veste determinada camisa ideológica — tenta vender ao público uma realidade paralela, como se a eleição presidencial já estivesse decidida por decreto estatístico. Pesquisas são tratadas como sentença, não como fotografia. Narrativas substituem fatos com a naturalidade de quem já não distingue uma coisa da outra.

Mas há um detalhe incômodo, pois sabe-se que o eleitor real não mora nas planilhas. Pode-se gostar ou não de determinados líderes, mas ignorar a força emocional e simbólica de candidaturas consolidadas é erro primário — ou má-fé calculada. Eleição não se ganha em manchete, nem se perde em editorial. Decide-se na urna, com memória, ressentimento, esperança e, sobretudo, interesse.

O que causa estranheza — e aqui mora o cheiro de queimado — é a tentativa de inflar candidaturas que, até ontem, não empolgavam nem seus próprios aliados. De repente, surgem como fenômeno eleitoral, sem campanha, sem rua, sem povo. Uma ascensão meteórica sustentada mais no gogó digital do que em capital político concreto.

Milagre? Não. Marketing. Mas o verdadeiro enredo não está nas pesquisas. Está nos porões.

A delação em gestação é descrita por interlocutores como um mapa detalhado de conexões, favores, intermediações e fluxos que atravessam instituições e derrubam narrativas de pureza seletiva. Não há lado imune. Não há biografia blindada. Há, no máximo, graus diferentes de exposição. E é aí que mora o pânico.

Nos corredores do Poder, cada sirene parece um prenúncio. Cada movimentação processual vira motivo de taquicardia coletiva. Há quem já ensaie versões, quem reescreva memórias e quem, discretamente, tente desaparecer do radar.

A República, como se vê, entrou em modo de contenção de danos. No meio desse cenário, há ainda os que insistem em cantar vitória antecipada nas eleições, como se o país estivesse imune ao efeito dominó que uma delação dessa magnitude pode provocar. Não está. Nunca esteve. Porque, no fim das contas, não será apenas uma disputa eleitoral que estará em jogo.

Será a capacidade do sistema de sobreviver ao que ele próprio produziu. E, convenhamos, quando o medo atravessa todos os lados, não há vencedores, mas apenas apenas sobreviventes.

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