Lucidez
Depois do Choro, o Limite
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Foi depois de chorar copiosamente daquele choro que não é só tristeza, mas colapso que nós tivemos certeza. Não o choro bonito, contido, cinematográfico. Foi o choro do ataque de pânico, da ansiedade que aperta o peito, da sensação de que o corpo não acompanha mais a mente. O choro de quem percebe que ultrapassou todos os próprios limites tentando sustentar algo que já estava nos destruindo.
Nós aprendemos, ali, que o corpo fala quando a consciência é ignorada por tempo demais. Ele grita quando insistimos em permanecer onde já não há cuidado, quando normalizamos a dor, quando nos convencemos de que aguentar é virtude. Não é. Aguentar demais adoece. Amar demais, quando não há reciprocidade, vira abandono de si.
Foi nesse ponto que algo mudou.
Não foi força repentina, nem superação romantizada. Foi lucidez. Nós entendemos que ninguém tem o direito de nos levar a esse lugar novamente. Não porque somos frágeis, mas justamente porque sabemos o quanto somos capazes de suportar e não queremos mais precisar provar isso.
Existe um momento na vida em que o sofrimento deixa de ensinar e passa a apenas ferir. Quando chegamos ali, o aprendizado não está em continuar, mas em parar. Em dizer basta. Em reconhecer que certos vínculos não são desafiadores, são destrutivos. E que nenhuma relação vale a nossa saúde mental, nosso equilíbrio, nossa paz cotidiana.
Nós não queremos mais relações que nos desmontem para depois prometerem nos consertar. Não queremos afetos que exigem crises como preço de permanência. O amor que aceitamos agora não nos empurra para o fundo do poço para depois estender a mão. Ele não cria o caos para se apresentar como solução.
E se algo precisa ficar como horizonte coletivo, é isso: nós temos o direito de nos proteger. Temos o direito de estabelecer limites depois do colapso, de aprender com a dor sem morar nela, de escolher a nós mesmas sem culpa. A vida continua quando entendemos que sobreviver não é o objetivo final viver com dignidade é.