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Fanfarra patriótica

Depois do horror, os símbolos do Brasil voltam a ser do povo

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Autor/Imagem:
Armando Cardoso* - Foto de Arquivo/ABr

Em um desses dias de pura inspiração e certamente se antecipando aos abutres, aos psicopatas e aos negociadores da pátria, o poeta Castro Alves escreveu que “A praça é do povo como o céu é do avião”. Bem mais tarde, o menestrel tricordiano Milton Nascimento fechou o caixão dos golpistas aventureiros ao afirmar que, com a roupa encharcada e a alma repleta de chão, todo artista tem de ir aonde o povo está. Se disseram assim, assim será. Depois de quatro intermináveis anos de paranoias ditatoriais e de lambanças varonis com o Brasil, o dia 19 de novembro, também conhecido por Dia da Bandeira, será uma data apenas comemorativa de uma das maiores marcas da República.

Desde o primeiro dia de janeiro deste ano, o resgate dos símbolos sociais ficou marcado, principalmente, pelo fim das fanfarras dos patriotas idiotizados e vestidos de verde e amarelo da cabeça aos pés. Nos dias de festas, talvez tenhamos novamente tropas, coronéis, generais, veículos militares, a Esquadrilha da Fumaça, mas nunca mais teremos mais o desorientado capitão comandando o fumacê dos tanques obsoletos que nos envergonharam no ameaçador desfile de 2021. Considerando que somos a segunda maior força militar das Américas, acho que os comandantes da época escolheram as máquinas a dedo.

A explosão de sentimentos fúteis e o enfrentamento do ex-presidente às instituições democráticas, particularmente ao Judiciário, são águas passadas. O povão tem uma vaga lembrança do então “mito” xingando, às vésperas do 7 de Setembro daquele ano, Alexandre de Moraes de “canalha”, afirmando, inclusive, que não obedeceria mais a nenhuma determinação do ministro. O vento mudou de lado, Alexandre virou Xandão, não se “canalhou”, tampouco se calou. O tal mito derrapou na rampa do Planalto, escorregou na própria soberba e acabou assumindo o pavor da imbrochabilidade. É o fim de mais um falador.

Está inelegível e, em breve, deverá se acostumar ao uniforme nada simpático usado por Walt Disney para “enfeitar” os Irmãos Metralhas. Para alívio da nação, é o que lhe resta. Hoje, do alto de sua vasta e reluzente cabeleira, Xandão é quem dá as cartas. Estou certo de que o ministro tem plena consciência da lei, mas, se pudesse, diria para ele se mirar um pouquinho no romancista francês Eugène Sue, autor da célebre expressão “A vingança é um prato que se come frio. Ainda mais emblemático, é a certeza de que o bom do caminho é haver volta. O que a sociedade ordeira quer ver diariamente pelas avenidas embandeiradas do país são as pessoas felizes e unidas cantando o Hino Nacional.

Desde a posse de Luiz Inácio, os bolsonaristas apostam no fiasco das festas programadas pelo presidente eleito. Foi assim na recepção aos brasileiros repatriados da Faixa de Gaza. A morcegada extremada deve seguir o conselho do senador Flávio Bolsonaro e, como fez no último 7 de Setembro, optar pela doação de sangue. Difícil será descobrir quem queira sangue contaminado de ódio e de frescurite aguda. Ainda que sinta as dores da hemorroida de botão aflorada, eu tô fora. Prefiro ser sugado pelo pop sinfônico dos artistas nas ruas. Eles farão o contraditório dos que, em anos anteriores, defendiam ações antidemocráticas e exigiam de um gaseificado presidente um golpe militar. Mesmo com apoio explícito e vergonhoso de autoridades da República, o golpe não veio. E não virá jamais.

A festa da zombaria acabou, a noite esfriou, a luz apagou e seu povo sumiu. E agora, você? O que fazer sem nome, sem cargo e sem discurso? Cuspir já não pode. Sua lavra de ouro, sua incoerência e seu ódio viraram pó. Dançou no mesmo tom de seus seguidores caixas de som, aqueles que só fazem barulho. Não sou vidente, mas miss e mister Bolsonarô não devem emplacar o próximo verão fora das quatro linhas. Nesse caso, o foguetório do Ano Novo talvez seja visto exclusivamente pela telinha da Globo Lixo. Consequentemente, da esquadrilha certamente não verão sequer a fumaça. Como diz o ditado, jacaré que vacila vira bolsa.

*Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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