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Pai da Aviação

Deputado mineiro quer lei para dizer o que todo mundo já sabe

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Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto de Arquivo

Aeronauta, desportista, autodidata e rico, o mineiro Santos Dumont é, de longe, uma das figuras históricas do Brasil mais conhecidas em todo o mundo. Entre nós, ainda hoje talvez seja mais reverenciado do que Gabigol nos dias de glória. Mentor do 14 Bis, é o Pai da Aviação; e que se mordam os irmãos Wright. Coube a ele projetar, construir e fazer voar os primeiros balões dirigíveis com motor a gasolina. De quebra, ele também inventou o chuveiro de água quente e o relógio de pulso como instrumento para ser usado exclusivamente no braço esquerdo. Ou seja, Santos Dumont sempre procurou o melhor lado para defender.

Portanto, tudo que minha voz violoncélica e meus ouvidos saxifônicos poderiam dizer ou ouvir sobre ele já foi dito ou escutado. O problema é que a fala ou a audição de um simples mortal já não tem qualquer efeito sobre os feitos recorélicos e cuiquélicos dos parlamentares brasileiros. Na falta do que fazer, vale tudo para aparecer, inclusive apresentar projetos de encabular meninos e meninas do Maternal II. Com o argumento de valorizar o legado do patrono da Aeronáutica, a Câmara divulgou recentemente o início da tramitação de um projeto de lei que torna obrigatória a referência a Santos Dumont em falas de comissários e de comandantes de aeronaves em voos domésticos.

De acordo com o texto, as mensagens devem conter ao menos uma vez durante o voo uma homenagem ou menção ao inventor brasileiro e sua contribuição pioneira para o desenvolvimento da aviação. A proposta determina que a homenagem deve ressaltar a importância de Santos Dumont como precursor da aviação e sua relevância histórica para a aviação mundial, incentivando o orgulho nacional e o reconhecimento de sua contribuição para o progresso tecnológico. Perdão, meus caros confrades, mas é ou não é um deboche com o povo que sonha com segurança, com o que comer e com uma moradia própria?

Pode ser um sonho de Ícaro incontrolável de alguém que desaprendeu como ser a locomotiva nas brincadeiras de trenzinho. Também pode ser um menino que não teve infância e que cresceu sem ver o Papai Noel. Talvez um desses homens públicos que passam as sessões do plenário e das comissões afundando cruzadores, porta-aviões, fragatas e boeings. Seja lá o que for, tenha paciência, bom senso e senso de ridículo. O Brasil de hoje necessita de novos homens bons e criativos como Santos Dumont. Homenagens exageradas e fora de época têm um “Q” de superficialidade e parecem feitas somente para impressionar.

Autor do projeto, o deputado Pedro Aihara (PR-MG) classifica a medida como reconhecimento e valorização do legado do Pai da Aviação. “Ao reconhecer seu legado, não apenas reafirmamos sua posição como o verdadeiro pioneiro da aviação, mas também celebramos sua contribuição para o progresso global nesse campo crucial”. Desavisado, o parlamentar deve viver no mundo da lua. Parece piada, mas é sério. Ele acha que, em plena era da Inteligência Artificial, o povo brasileiro merece ser massacrado com informações que aprendeu – e não esqueceu – há 30, 40, 50 anos.

O parlamentar deve ser inimigo da informação. Por isso, precisa urgentemente ser informado de que não há rede social no céu. Obrigar a Câmara e suas comissões a perder tempo com uma proposta dessa é, no mínimo, má utilização do dinheiro público. As homenagens não são para aqueles que partiram e deixaram saudades, mas para os que trabalham de sol a sol pelo Brasil sem reconhecimento algum. Boa homenagem é aquela que a gente pode receber em vida.

Que tal enaltecer os passageiros das companhias aéreas brasileiras que pagam caríssimo por uma passagem e, quando voam, nem sempre o fazem no horário? Santos Dumont não precisa de mais ninguém para torrar sua paciência. Ele só quer descansar em paz.

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