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Rancor

Desamor total

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e Foto

“O amor é mesmo uma coisa louca. Pessoas baratinadas e psicopatas”
(Nelson Rodrigues, jornalista e dramaturgo)

Era um poeta. Naquela noite voltou pra casa com rancor.

Entrou no apartamento e quebrou tudo.

Chamaram a polícia.

— Doutor, eu apenas explodi.

— Meu caro, mas quebrou todo o apartamento?

— Pois então, foi uma reação.

— Reação do quê?

— Contra tudo o que ela me fez.

— Malandro, sem essa… você se ferrou.

— Pois é, eu sei. Mas me ferrei porque eu quis.

— Como assim?

— Ela me ferrou em três vezes. Aí eu me vinguei.

— Da pior maneira. Matou o gato dela, os cachorros e depois ficou perambulando pelo quintal.

— Não, doutor, eu apenas fiz a justiça.

O cara foi mandado para a grade e anos depois os advogados defenderam.

“Nobre Juiz, meu ajuizado é inocente, pois estavas em transe contra fortes forças que o levaram à violência. Ele nem atentou contra a mulher”

O cara vivia na Bolsa de valores e todos os dias chegava em casa alucinado.

Brigava com a mulher – que o traía com o jardineiro da mansão.

Naquele dia ele decidiu se vingar: pegou o gato e jogou pela janela da casa. Foi ao quintal e deu veneno aos dois cachorros.

O homem estava impossível.

Cinco anos depois foi absolvido e cumpre pena domiciliar em casa.

Tempos depois, a mulher acordou às 4h da manhã e foi tirar a forra.

Tinha a chave da casa e entrou.

Quebrou tudo e matou o papagaio de estimação dele, o Loro.

Polícia e o escambau.

Tudo voltou ao Tribunal.

Os dois foram presos.

No dia da audiência os dois cara a cara:

_ Porque o senhor matou o gato e os cachorros?

— Por desamor. Rancor e Justiça.

— E a senhora, porquê entrou tempos depois lá e quebrou tudo e matou o papagaio, Loro?

— Por desamor. Rancor e ódio.

A mulher foi imputada por crime de dolo intencional e cumpre pena na Penitenciária do Tremembé por 8 anos.

Naqueles anos, a Justiça sempre cumpria a pena contra a mulher.

Ela ainda está presa e o cara anda pela avenida Faria Lima de terno negociando lances com as bigtechs.

Pois olha, essa crônica é de 2026!

Não fala de décadas atrás.

O tempo flui em círculos, mas a vergonha e a justiça não.

………………………

Gilberto Motta é escritor, jornalista e pesquisador de barbaridades. Vive na Guarda do Embaú-SC.

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