Sem arrodeios
Destino de Brasília está nas mãos das mulheres
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A sucessão ao Palácio do Buriti começa a ganhar contornos que vão muito além de uma disputa convencional entre grupos políticos tradicionais. Se os movimentos mais recentes se confirmarem, o destino do Distrito Federal pode, sim, estar nas mãos de quatro mulheres, cada uma com estratégia própria, mas todas determinantes para o resultado das urnas de outubro.
De um lado, o ex-governador José Roberto Arruda (PSD) tenta montar uma chapa competitiva para retomar o comando do GDF. A engenharia pensada por ele inclui a deputada distrital Paula Belmonte (PSDB) como vice, além da deputada federal Bia Kicis (PL) e da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) como candidatas ao Senado.
O desenho seria robusto no papel, uma vez que uniria centro-direita, conservadorismo e bolsonarismo em uma mesma engrenagem eleitoral. Na prática, porém, a costura enfrenta resistências. Paula, Bia e Michelle avaliam que associar seus nomes ao passado político de Arruda pode representar um ônus elevado em um ambiente ainda sensível à memória de escândalos que marcaram a história recente da capital da República.
Enquanto Arruda tenta avançar, forma-se um bloco alternativo. A vice-governadora Celina Leão (PP), pré-candidata natural à sucessão do governador Ibaneis Rocha (MDB), passou a ser vista como o ponto de convergência do bolsonarismo local.
Nos bastidores, Bia Kicis e Michelle Bolsonaro já teriam decidido direcionar o capital eleitoral do conservadorismo para Celina. Se confirmado, esse movimento consolida uma aliança feminina de peso. É a gestora em posição de continuidade, a deputada combativa no Congresso e a figura simbólica do bolsonarismo nacional.
Seriam, no jargão político, “três mosqueteiras” unidas contra a tentativa de retorno de Arruda ao Buriti. Donas de carisma verdadeiro, como os personagens masculinos de Alexandre Dumas.
No outro vértice está Paula Belmonte. Mesmo assediada para compor como vice, a deputada distrital mantém-se como pré-candidata ao governo, com apoio declarado do ex-senador Antônio Reguffe (Solidariedade) e do deputado federal Aécio Neves, presidente nacional do PSDB.
A estratégia tucana é clara: ocupar o espaço de uma direita moderada, com discurso de gestão técnica e renovação, sem atrelar-se nem ao passado controverso de Arruda nem à polarização mais acentuada. Trata-se de um voo solo arriscado — mas que pode ser decisivo em um cenário fragmentado.
O curioso dessa sucessão é que, embora os homens ainda articulem nos bastidores, o protagonismo eleitoral está cada vez mais concentrado nas mulheres. Nesse xadrez político, são elas que carregam votos, narrativas e capacidade de transferência de apoio.
Celina representa a continuidade administrativa. Bia e Michelle mobilizam a militância conservadora. Já Paula tenta se firmar como alternativa de renovação.
Se a eleição se desenhar como indicam os movimentos atuais, não será exagero dizer que o futuro político da capital da República poderá ser definido menos por caciques tradicionais e mais pela capacidade de articulação ou divisão dessas quatro lideranças femininas.
O certo é que no tabuleiro do Distrito Federal, as peças estão postas. E, desta vez, quem parece dar o xeque-mate pode não ser um rei, mas quatro rainhas disputando espaço no jogo do poder.
Agora, de mulher para mulher: vocês acham mesmo que o eleitor vai ‘arrudear’? Na minha opinião, não. Chega de arrodeios.
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Marta Nobre é Editora Executiva de Notibras
