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Contestado, a guerra esquecida (Parte 1)

DEUS E O DIABO NAS TERRAS DO SUL

Publicado

Autor/Imagem:
J. Emiliano Cruz - Foto Francisco Filipino

Curioso, Jonathan começou a abrir cuidadosamente a caixa que chegara pelo correio.

Morador da cidade catarinense de Concórdia, lugar em que nasceram e residiram todos os seus ascendentes diretos (assim acreditava), ele não fazia a menor ideia do conteúdo daquele estranho pacote remetido por alguém de nome Adso de Melk, cujo endereço declarava apenas a cidade de Florianópolis.

Após o desembaraço do papel que envolvia o invólucro e a abertura da caixa, ele viu um envelope branco sobre um calhamaço de folhas amareladas amarradas com barbante.

Dentro do envelope, uma folha branca escrita à mão contendo um breve e misterioso texto:

“Prezado Jonathan,
Envio-lhe essas memórias que julgo ser do seu interesse.
Através de várias gerações, as mesmas foram passando de mão em mão na minha família.
Todavia, acredito que já é hora de chegar às suas.
Por uma questão de segurança, não declarei o meu verdadeiro nome e o meu endereço.
Após a leitura, sei que você compreenderá.
Deixo a seu critério o destino dessa história.
Atenciosamente
Adso”

Curiosidade ainda mais aguçada, ele serviu-se de uma taça de vinho tinto, retirou o barbante do calhamaço de páginas amareladas e, avidamente, pôs-se a ler a primeira página.

“Meu nome é Benjamim Green, sou americano e jornalista. Vim para o Brasil no ano de 1906 a serviço do jornal New York Times a fim de acompanhar os empreendimentos da empresa Brazil Railway Company, de propriedade do empresário estadunidense Percival Farquhar.

Mais precisamente, minha missão era cobrir a construção da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande do Sul. ferrovia que foi projetada para ligar o município de Santa Maria/RS à metrópole paulista.

Percival Farquhar foi um megaempresário que desenvolveu múltiplas atividades no Brasil, sendo o seu último empreendimento em solo brasileiro a constituição da ACESITA, empresa posteriormente vendida ao Banco do Brasil.

Até por volta de 1910, ano em que a ferrovia alcançou a região do Contestado, território assim chamado por ser disputado pelos governos dos estados de Santa Catarina e do Paraná, a cobertura ateve-se à rubrica do cotidiano: muita poeira, sol, chuva, suor, conflitos entre peões e supervisores, problemas de ordem prática não previstos no projeto e mutilações e mortes acidentais de trabalhadores.

Todavia, quando os trilhos começaram a ser assentados na chamada região do contestado, senti uma energia diferente, um sentimento difuso de eletricidade que se espalhava pelo ar.

Nesse território, espraiava-se uma extensa e densa floresta nativa de pinheiros e araucárias. O tino comercial de Percival Farquhar não deixaria essa riqueza natural passar despercebida sem uma exploração predatória, é claro!

Logo, ele acordou uma concessão de exploração com os governos federal e estaduais e implantou uma madeireira para comercializar a preciosa madeira nativa da região.

Como de costume, o megaempresário não teve escrúpulos em passar por cima de quem estivesse obstruindo seus caminhos: organizou uma milícia de jagunços – apelidada de vaqueiros – com o objetivo de, juntamente com as forças policiais estaduais, intimidar e expulsar sitiantes, posseiros e pequenos proprietários de terras em volta da ferrovia. Essas terras, segundo o planejamento de Percival, seriam vendidas a preço de ouro para imigrantes europeus após serem desmatadas.

Dois anos após a ferrovia ter atingido a região do Contestado, os trabalhos estavam em fase de finalização naquele território, deixando atrás de si, além dos trilhos e estações, um caldeirão que misturava descontentamentos, revoltas e ódios pulsantes.

Aos pequenos proprietários e posseiros em geral desalojados das suas terras, juntaram-se os trabalhadores da ferrovia que haviam sido dispensados da obra.

Essa massa sem destino vagava pela região, acampando aqui e li, sobrevivendo como podia sem as condições de dignidade mais básicas.

Tentei entrevistar Percival e questionei se a sua Companhia não deveria prestar uma assistência àquele povo que ficou sem eira nem beira após a ferrovia rasgar o Contestado. Ele declarou apenas que isso era problema do Estado brasileiro e, portanto, das autoridades que o representavam, em nada podendo ajudar.

Disse a ele que sentia eletricidade no ar e que a situação poderia evoluir para um vulcão em erupção que logo cuspiria as suas lavas na cabeça de quem estivesse no entorno. Ele deu de ombros.

Nesse cenário de precariedades, misérias e rancores coletivos, um nome foi se destacando como referência de esperança e iluminação para a multidão de deserdados: Miguel Lucena de Boaventura, mais conhecido como Monge José Maria do Santo Agostinho.

A vida mística do monge ascende na Vila de Campos Novos no Estado de Santa Catarina, mesclando em suas atividades as habilidades de conselheiro, curandeiro e profeta, angariando, dessa forma, a simpatia e a devoção de inúmeros desabrigados que vagueavam na região.

Eu o vi apenas uma vez, mas é possível afirmar que José Maria era uma pessoa de cultura e inteligência muito acima da média, revelando-se um líder nato e carismático a exemplo de Antônio Conselheiro, o inspirador e líder espiritual da famosa revolta de Canudos, na Bahia.

Como resposta às agressões dos vaqueiros a serviço dos coronéis e forças policiais estaduais, José Maria pregava a organização dos chamados sertanejos em forças combatentes e a constituição de “redutos santos” em cidades do Contestado, onde todos poderiam viver de forma irmanada e igualitária.

O monge estava sempre acompanhado de uma dedicada e feroz guarda pessoal que não permitia a ninguém uma aproximação mais estreita com o líder-santo.

A força o e sucesso desse movimento popular – que angariava adeptos todos os dias – assustou os coronéis da região e, logo, eles pediram aos governos de Santa Catarina e do Paraná o envio de uma robusta força policial que pudesse esmagar os revoltosos que “queriam restaurar a monarquia no sul do Brasil”.

Informado sobre a incursão de uma força-tarefa conjunta que aglutinava polícias estaduais e jagunços a serviço dos coronéis, José Maria ordenou a concentração dos sertanejos no então maior “santo reduto” da irmandade, situado na cidade de Irani/SC, onde, reunidos, os sertanejos enfrentariam os agressores.

Após renhidos combates que duraram cinco dias e vitimaram centenas de combatentes dos dois lados, a superioridade numérica e de armamento das forças policiais e dos vaqueiros prevaleceu sobre a heroica resistência dos sertanejos.

Antes do previsível final da batalha, José Maria ordenou que a sua guarda pessoal fugisse do local e, futuramente, reorganizasse o movimento formando um “santo exército encantado”. Contam algumas testemunhas que ele abençoou os fiéis seguidores com o seu cajado e, a seguir, suicidou-se, cravando uma adaga no coração.

No dia seguinte ao funesto evento que deixou centenas de mortos, representantes dos estados do Paraná e Santa Catarina no Senado aplaudiram de pé o pronunciamento de um colega fazendeiro paranaense:

“Esse acontecimento, ao mesmo tempo em que nos cobre de pesado luto, nos anima e nos incita na obrigação de secundar as forças do estado vizinho para que, de uma vez, sejam extirpados os elementos maus que procuram perturbar nossa vida de trabalho e progresso”. (Agência Senado)

Depois da morte do monge, os devotos aparentemente se dispersaram. O sentimento de revolta, porém, permaneceu no ar.

Crianças diziam ver o monge em sonhos pedindo aos fiéis que se preparassem para uma guerra santa.

Assim, difundiu-se a crença de que José Maria voltaria do céu acompanhado do “Exército Encantado de São Sebastião” para fazer justiça na terra.

Então, sob a liderança dos sobreviventes que compuseram a guarda pessoal do monge-santo, o grupo rebelde voltou a se reunir na cidade de Taquaruçu.

Todavia, agora não eram apenas os antigos messiânicos seguidores do monge José Maria que se prepararam para a luta. Somaram-se a eles descontentes e deserdados em geral: colonos expulsos de suas terras, pequenos fazendeiros que se opunham aos coronéis, tropeiros sem trabalho, desempregados da obra da ferrovia e até ex-combatentes da Revolução Federalista (1893–1895) que tinham experiência com armas e contestavam a República centralista que nascera em 1889.

Foi aí que, levado por um amigo que havia sido oficial das forças federalistas no Rio Grande do Sul chamado Honório Lemes filho, consegui juntar-me aos revoltosos em seu principal reduto.

Apesar da minha simpatia pela causa dos rebeldes, minha prioridade era profissional: registrar e documentar os fatos como jornalista.

Foi assim que conheci os principais líderes rebeldes da segunda fase da Guerra do Contestado, entre eles, Adeodato Manoel Ramos e Maria Rosa, a vidente.

Adeodato, ex-integrante da guarda pessoal do monge José Maria, era um sertanejo da região que fora expulso do seu pequeno sítio por Percival Farquhar e sua companhia ferroviária-madeireira. Tinha nível cultural surpreendente para a sua condição social, habilidade para manejar armas e um carisma natural, preceitos que o colocaram no primeiro patamar da liderança militar dos rebeldes. Decidido, convicto da justiça da sua luta e cruel com os inimigos nas batalhas, Adeodato recebeu da imprensa da época o apelido de “Diabo do Contestado”.

Maria Rosa era a jovem líder espiritual da segunda fase do movimento rebelde, chamada “a vidente” pelos sertanejos.

Belíssima, recatada e dona de fortíssima personalidade, ela passava horas e até dias reclusa em seu quarto orando e recebendo mensagens do além.

Quando saía da clausura, emanava ordens sobre diversos assuntos: quem seriam os comandantes das incursões guerreiras dos rebeldes, quem deveria conduzir as rezas em adoração ao santo-monge, quem deveria ser preso ou até mesmo fuzilado por traição à causa rebelde.

Paulatinamente, fui ganhando a confiança dos dois principais líderes do movimento sertanejo. Eventualmente, saciava a curiosidade deles sobre como era a vida nos Estados Unidos, a história dos estadunidenses e seus conceitos sobre república e democracia. Para minha surpresa, eles gostavam de aprender coisas novas e tinham a mente aberta para tentar entender outras culturas.

Enquanto isso, o medo dos fazendeiros com o ressurgimento do movimento sertanejo ainda mais forte do que antes mobilizou os governos estaduais para darem prioridade àquela questão.

Expedições militares tentaram acabar com a força dos sertanejos atacando Taquaruçu.

Depois de várias tentativas, o reduto foi destruído em fevereiro de 1914. A força militar bombardeou a comunidade à distância, atingindo principalmente mulheres, crianças e idosos, pois os líderes decidiram levar a maior parte dos homens para tomar outro reduto, o de Caraguatá.

Taquaruçu foi um massacre: metralhadoras, granadas e canhões foram usados no ataque. Historiadores que participaram dos combates como soldados da força legal relatam o horror da repressão brutal e indiscriminada exercida pela força policial.

“Pernas, braços, cabeças, casas queimadas… Fazia pavor e pena o espetáculo que se desenhava aos olhos. Pavor motivado pelos destroços humanos; pena das mulheres e crianças que jaziam inertes por todos os cantos” (Agencia Senado).

Entretanto, o massacre selvagem revoltou a população e só fez fortalecer o movimento.

Os sertanejos começaram a expandir as suas ações. Milhares de novos adeptos sem terra e sem teto se mudavam para os redutos rebeldes e novas “cidades santas” surgiam.

A maior delas, Santa Maria (que não tem relação com o município gaúcho homônimo), chegou a somar vinte e cinco mil pessoas.

Ao mesmo tempo, o movimento radicalizou-se e militarizou-se ao extremo com a adesão de mais líderes com experiência militar às forças rebeldes.

No final do ano de 1914, os sertanejos começaram a saquear fazendas, roubando gado e comida, arregimentando pessoal (até sob ameaça) para reforçar os redutos.

Passaram também a atacar e ocupar cidades. Nos ataques, estações de trem e repartições públicas eram queimadas como represália à Ferrovia e aos governos estaduais que disputavam a posse da região, tudo sob a batuta de Adeodato e Maria Rosa.

Enquanto isso, eu ficava cada vez mais próximo dos dois líderes rebeldes e até ousava dar alguns conselhos a eles acerca das melhores estratégias para fortalecer o movimento com a menor perda de vidas possível.

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A parte II (epílogo) de DEUS E O DIABO NAS TERRAS DO SUL será publicada no domingo (18).

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