Contestado, a guerra esquecida (Epílogo)
DEUS E O DIABO NAS TERRAS DO SUL
Publicado
em
Por Deodato, desenvolvi admiração e fraterna amizade.
Por Maria Rosa, bem, simplesmente me apaixonei…e fui correspondido! Durante as longas e enluaradas noites do Contestado, ela saía furtivamente dos seus sagrados e abastados aposentos para visitar o meu modesto quartinho de dormir.
Na conjuntura da guerra, como não poderia deixar de ser, a crescente representatividade social do movimento sertanejo sulista e o seu incrível poder de fogo chegaram aos perplexos ouvidos do governo federal.
Na dialética da história real, por mais que a mídia da época martelasse a narrativa de um movimento messiânico de fanáticos a ameaçar a ordem republicana, o fato é que a guerra do Contestado havia se tornado um embate de pobres e despossuídos contra ricos e grandes proprietários de terras.
Um confronto heroicamente levado a cabo por uma massa deserdada que queria formar comunidades autônomas – onde todos viveriam em comunhão de bens – o que era uma contestação da própria ordem elitista republicana, da concentração fundiária, do poder dos coronéis da Guarda Nacional e da força da polícia, do Exército e da companhia norte-americana ferroviária sobre eles.
Com apoio das forças policiais dos governadores de Santa Catarina e Paraná, em 1914 o governo do presidente Hermes da Fonseca decidiu empreender uma grande operação militar para aniquilar de vez a revolta.
Sob o comando do general Setembrino de Carvalho, seis mil soldados fortemente armados rumaram para o sul do país. Além deles, dois mil civis (chamados vaqueanos), a maioria integrantes das guardas privadas armadas mantidas pelos coronéis da região, foram contratados para auxiliar o Exército.
A ordem do governo era clara: “acabar de vez com os fanáticos que ameaçam a República”.
Vagarosa, mas inflexivelmente, o cerco contra os “redutos santos” começou a apertar.
Faltava comida, remédios e munição para os rebeldes.
Há relatos de que, no final da resistência das cidades rebeldes, comia-se até couro de cintos e arreios para não se morrer de fome.
Caídos todos os outros “redutos-santos”, aproximava-se a batalha final para a tomada de Santa Maria, reduto onde eu me encontrava juntamente com as principais lideranças do movimento.
Então, fui convocado para uma reunião de emergência do petit-comitê militar de Santa Maria com Adeodato, Maria Rosa e mais alguns líderes.
— Ben, você e Rosa precisam sair daqui!
— Mas, Adeodato, e você, os outros líderes…e o reduto?
— Nós cumpriremos o nosso destino! E levem junto a minha companheira, Zilda, ela também está grávida.
— Como? Rosa, você grávida? exclamei, estupefato.
— Sim, Ben! Descobri isso há um mês.
— Vão para um lugar bem longe daqui. Confio em você para proteger a vida do meu filho, Ben!
— Se é assim que você quer, Adeodato, juro a você que o protegerei com a minha própria vida!
— Sim, é assim que eu quero! Agora arrumem as suas coisas, peguem armas, roupas, provisões para um mês e saiam pelo túnel que leva à Igreja.
Um breve silêncio significativo foi rompido por muitos abraços e emocionadas falas quase monossilábicas: “adeus”, “boa sorte”, “Deus te acompanhe”…
O reduto de Santa Maria foi tomado e destruído em dezembro de 1915.
Em telegrama ao comandante das forças legalistas, o capitão responsável pelo ataque final, relata:
“Tomei e arrasei treze redutos com enormes sacrifícios do meu heroico destacamento. Matamos em combate mais de mil jagunços, não contando o grande número de feridos. Arrasei perto de cinco mil casas e dez igrejas”
Derrotados, os rebeldes se dispersaram. havendo rendições em massa das famílias sertanejas.
Os vaqueanos começaram então uma caçada aos últimos líderes rebeldes. Muitos deles foram mortos em execuções sumárias, mesmo depois de rendidos.
Adeodato, o “Diabo do Contestado”, foi ferido e aprisionado durante o combate.
Queriam mostrar “o monstro antirrepublicano” para a imprensa, ainda vivo.
Alguns jornais registraram a sua declaração após ele ouvir a sentença de trinta anos de prisão do juiz, palavras proferidas na forma de versos irônicos e sombrios:
“Para tirar o mal do mundo / Tinha feito uma jura / Ajudei nosso governo / A quem amo por ternura / Acabei com dez mil pobres / Que livrei da escravatura / Liquidei todos os famintos / E os doentes sem mais cura / Quem é pobre neste mundo / Só merece sepultura.”
Adeodato foi morto alguns anos depois durante uma suposta tentativa de fuga da prisão.
Quanto a mim, minhas duas companheiras de fuga e seus rebentos ainda intrauterinos, rumamos para a cidade de Santa Maria, a homônima gaúcha da capital sertaneja do Contestado. Lá, recebemos abrigo da família do meu amigo Honório, o federalista gaúcho que me introduziu no meio dos sertanejos rebeldes.
Maria Rosa e eu nos estabelecemos na acolhedora cidade de Santa Maria da Boca do Monte e casamos na data de 02 de janeiro de 1917, algum tempo depois do nascimento da nossa belíssima filha Maria José, nome dado a ela por absoluta insistência de Maria Rosa.
Zilda, a viúva de Adeodato, discípulo e sucessor do monge José Maria, teve um lindo menino a quem deu o nome de Benjamin Adeodato.
Alguns anos depois, ela casou-se com um irmão do meu amigo Honório, aquele que, juntamente com milhares de rebeldes, pereceu na última batalha da Guerra do Contestado.
Bem, esse relato termina aqui.
Se a peça tem algum valor, não posso julgar. Deixo a critério do futuro e da apreciação das nossas descendências”.
Quase ofegante, Jonathan finalizou a leitura e, em um reflexo, lembrou:
— Meu bisavô se chamava Benjamim Adeodato!
Ainda perplexo, raciocinou:
— Então, eu sou descendente direto de Adeodato Manoel Ramos, o líder militar dos rebeldes do Contestado!
— Mas quem terá me enviado esse texto? questionou-se.
— Hum…só pode ser algum descendente de Benjamim Green, o jornalista autor desse texto. Ele ou ela deixou a meu critério a publicação ou não da história, por sinal, uma belíssima história, ruminou.
Num repente, Jonathan ligou os pontos e formatou a conexão de tudo aquilo:
— Quem me enviou o texto também sabe que sou escritor e roteirista. Cabe a mim honrar a luta do meu valoroso e célebre ascendente e seus companheiros.
— A partir desse belo texto, hoje mesmo vou começar a escrever um roteiro que emule essa história para o mundo. Vai começar assim:
“Curioso, Jonathan começou a abrir cuidadosamente a caixa que chegara pelo correio…”
Fim