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Final da Copa

Dia de reverenciar deuses que tomaram nosso pódio

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Autor/Imagem:
Armando Cardoso - Foto de Arquivo

Retrato em preto e branco do apagado e sombrio futebol do Brasil, o MetLife Stadium, em Nova Jersey, será palco de uma final de Copa do Mundo com heróis improváveis. Na verdade, as duas seleções que ocupam o primeiro e o segundo lugar no ranking da Fifa apresentarão ao mundo dois mestres e dois aprendizes. Do lado espanhol, o craque Lionel Messi estará frente a frente com a jovem estrela espanhola Lamine Yamal, a quem carregou no colo. Antes de comandar brilhantemente a Argentina, Lionel Scaloni foi aluno de Luís de la Fuente no curso de treinadores da União das Associações Europeias de Futebol (Uefa).

Coisas dos deuses do futebol. Neste domingo, 19, antes do cair da noite no Brasil, o mundo saberá quem é a melhor entre as melhores. E nós, que já fomos os mestres de todos os mestres, estaremos limitados a aplaudir e a reverenciar os que nos reverenciaram por décadas. Resultado da corrupção, da má gestão e do abandono do futebol brasileiro. Voltando à finalíssima, basta um mínimo de entendimento do esporte bretão para que, até o último fim de semana, imaginássemos um confronto entre França e Inglaterra. A primeira jogou de salto alto contra os espanhóis, enquanto os ingleses, covardes, mas se achando lordes, dançaram um ultrapassado rock diante do moderníssimo tango argentino.

Como a bola castiga quem não joga, as duas seleções estão fora. Do ponto de vista do futebol, merecidamente Espanha e Argentina disputam o título de campeã da Copa do Mundo de 2026. Triste final para os brasileiros, cujas bandeiras estiveram desfraldadas até Halland e sua companhia de vikings furarem o barquinho “canarinho” estrelado, mas sem força, sem brio, sem emoção e nenhum patriotismo. Merecimento e frustração à parte, resta a grande dúvida para a maioria dos raivosos torcedores brasileiros. Para quem torcer? Fechamos com os espanhóis racistas ou com os racistas e mal-educados argentinos?

Como sul-americano e amante do futebol aguerrido e verdadeiramente patriótico, sorrateiramente poderia desengavetar a camisola dos portenhos e enfiá-la por baixo do manto sagrado da nação rubro-negra. E por que não farei? Primeiro porque desaprendi a gostar de quem não gosta da negritude e que não respeita os adversários. Depois porque não durmo faz dois dias com medo de sonhar com a possibilidade de ver o parmesão Donald Trump entregando a taça de campeão mundial para o empanado Javier Milei. Tudo pode acontecer em Nova Jersey, menos essa afronta à democracia.

Deus me livre dessa desgraça binacional. Será demais para qualquer cidadão sem bipolaridades sofrer com o fracasso do Brasil, ser obrigado a assistir de perto o melodrama do clã Bolsonaro e ainda ter de engolir a trançada e insossa chouriçada entre Trump e Milei. À beira de um ataque de nervos, sei que são coisas da vida. É o contraste com o caos vivido pela “pátria de chuteiras”, hoje mais conhecida como o país dos craques de sapatilhas douradas da Nike, Adidas e da Puma, entre outras marcas. O que fazer diante dessa nova realidade?

Nada a não ser rezar aos deuses das balizas. Quem sabe eles se comovem e novamente nos ensinam o caminho do gol. Preocupado com a inveja do sucesso alheio, preciso ter humildade para reconhecer que a chegada da Espanha e da Argentina à final da Copa do Mundo de 2026 é resultado de um projeto de longo prazo, incluindo dois treinadores que ascenderam das categorias de base das duas federações. De fato, torço para que, nesses mares do mundo, que Neymar Junior ancore seu iate, desligue seu helicóptero e se ligue na melhor forma de jogar futebol. Um dia ele será informado que enganou os brasileiros durante três Copas.

Falar sobre o futebol brasileiro é a narrativa de uma história que não pode ser esquecida, mas que tem de ser vista como ultrapassada. No futebol, o Brasil é apenas um mito do passado. Nos Estados Unidos, a pior derrota é saber que não dava para a gente ganhar. Como não posso prever o dia de amanhã, tenho o direito de esquecer o ontem e nem lembrar do hoje. Por isso, esperando que vença o que não perder, vou tentar torcer pela Argentina. Se estão lembrados, todos os países pelos quais torci no início, meio e fim da Copa voltaram para casa com as mãos abanando. Avante, hermanos racistas.

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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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