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Papos presenciais

Dirce sai sem celular e descobre o mundo ao redor

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Martínez - Foto Produção Irene Araújo

Não se sabe exatamente como aconteceu, mas aconteceu naquela cidade no sertão do Nordeste. Dizem que começou com a Dirce, mulher já passada dos 70 anos, que, saudosa de tempos de outrora, esqueceu seu aparelho celular sobre a cômoda. Falam até que foi de propósito.

Dirce, que havia saído para fazer algumas compras na mercearia do bairro, quando se deu conta do canto de um sabiá-laranjeira, parou um instante para observá-lo. Ela conhecia tal pássaro de peito garboso, mas, a despeito de tentar buscar na memória, não conseguiu recordar a última vez que ouvira aquela melodia.

Na venda, a mulher reparou como as frutas estavam bonitas, especialmente as maçãs. Ela pegou uma e a levou até as narinas. Hum, que cheirinho gostoso de maçã. Dirce pensou que deveria fazer isso mais vezes. Fez o mesmo com as uvas, as laranjas e especialmente com a graviola, que a remontou ao tempo de menina, quando se lambuzava com os irmãos debaixo do pé dessa fruta no quintal da avó.

Com a sacola cheia, foi pagar pelas compras. Foi aí que reparou nos olhos do Amâncio, o dono do comércio. Eram de um castanho quase negro, com cílios que pareciam cortinas.

— Aposto que você puxou os olhos da sua mãe.

— É verdade. Mas os de mamãe eram mais bonitos.

A velha retornou para casa, onde encontrou, de pé na calçada em frente à porta, os filhos: Marisa e Júlio.

— Mamãe, onde a senhora estava? Pensamos que tivesse acontecido alguma coisa.

— Como assim, meu filho?

— A senhora não respondeu as mensagens que mandamos. Nem atendeu o celular.

— Ah, esqueci. Mas você sabe que foi até bom.

— Por quê?

— Minha filha, você já reparou nos olhos do Amâncio?

— Amâncio? O da mercearia?

— Sim. Sabia que ele puxou os olhos da mãe?

— Mãe, a senhora está se sentindo bem?

— Melhor impossível! Ouvi até o canto de um sabiá.

— Sabiá?

— Sim! É tão lindo! E sinta o cheiro dessa graviola.

— Mamãe, a senhora está muito estranha.

Marisa e Júlio até pensaram em internar a mãe, mas deixaram a coisa correr. Dirce, por sua vez, tratou de guardar o aparelho celular no fundo de uma gaveta qualquer e, depois de algum tempo, até se esqueceu de onde o havia colocado.

A mulher passou a caminhar pelo bairro, apreciava tudo ao seu redor, como se fosse a primeira vez que fazia aquilo. Não era, mas queria porque queria curtir cada instante, cada som, cada odor, cada flor que despontava nos canteiros ao longo das calçadas. De tão feliz, gerou curiosidade numa vizinha, que também passou a esquecer o celular.

Esse hábito acabou por pegar todas as pessoas da rua, que gerou uma onda nas ruas abaixo, até que tomou todo o bairro e, não demorou, chegou aos bairros ao lado. No final de dois meses, aquela estranha doença acometeu todos os habitantes da cidade. A coisa ficou tão grave, que tem gente que até conversa em fila de banco. Quanto aos celulares, todos adormeceram por falta de bateria. Seja como for, está tudo bem.

*Eduardo Martínez é autor do livro “57 Contos e Crônicas por um Autor muito Velho”.

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