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Outros tempos

DO CAMPO PARA A CIDADE…

Publicado

Autor/Imagem:
Tania Miranda - Foto Francisco Filipino

De que me adianta viver na cidade
Se a felicidade não me acompanhar?
Adeus, paulistinha do meu coração
Lá pro meu sertão eu quero voltar
Ver a madrugada, quando a passarada
Fazendo a alvorada, começa a cantar
Com satisfação, arreio o burrão
Cortando estradão, saio a galopar
E vou escutando o gado berrando
Sabiá cantando no jequitibá…
(Belmonte/Goiá)

Essa canção, da década de sessenta, mostra o espírito do caboclo na transição do campo para a cidade. Era quando o homem do campo deixava sua terra natal e seguia rumo à modernidade… e o choque cultural era tamanho que não raro a pessoa não conseguia se acostumar com a nova vida. Acostumado a colher frutos dos vários pomares espalhados pela roça, ter à sua mesa peixe recém pescado, verduras fresquinhas para suas refeições não era fácil a adaptação às “comodidades da vida moderna” que, para este, de cômodo nada tinha…

Estamos falando de uma época em que o antigo estava, aos poucos, se transformando. As grandes fazendas iam se tornando empreendimentos imobiliários, onde grandes industrias começaram a mudar a paisagem do interior. Claro que essa transição era lenta. O caboclo sentia primeiro na sua rotina. De repente o patrão simplesmente não precisava mais dos serviços de seus colonos. Sim, era assim que o trabalhador rural era chamado. E esse colono, aos poucos, era desalojado de sua casinha e, sem recursos, acabava se mudando com a família para outros pagos, onde as chances de conseguir trabalho pareciam reais…

Temos que nos lembrar que era uma época em que o analfabetismo era regra e não exceção. Embora no campo houvessem algumas escolas, até pela rotina de trabalho do colono, as crianças acabavam por não ter sua formação acadêmica como deveriam… afinal, seus braços eram necessários para reforçar a renda familiar. Cada centavo que entrava contava, e muito, para aliviar as despesas da casa…

Fogão de lenha, casa de pau a pique… até havia algumas casas de alvenaria, mas era exceção, não regra… no lugar de camas, esteiras, muitas vezes feitas pelas próprias mãos, com a taboa colhida de algum recanto. Não muito longe, o barulho das águas a correr… se fosse uma fazenda de plantação de arroz, quadras e mais quadras alagadas, onde os colonos trabalhavam com afinco, a fim de, ao chegar a época da colheita, ter um produto bom e nutritivo…

Normalmente o fazendeiro cedia um espaço para seus colonos para fazerem uma horta de subsistência. E nessas hortas plantava-se mandioca, batatas, milho, verduras em geral. Também era comum ter algumas galinhas que, de vez em quando, reforçavam o cardápio…

Normalmente havia um pomar, e os colonos acabavam por servir-se das frutas ali produzidas. Por não ser em escala comercial e sim para consumo de todos, ninguém era proibido de aproveitar aquilo que a terra fornecia. Claro, desde que não houvesse abusos…

As relações entre as pessoas eram próximas. Afinal, todos se conheciam e compartilhavam o mesmo destino. As mulheres iam juntas buscar a lenha que proporcionaria o fogo necessário para a cozinha, os homens se embrenhavam na mata para conseguirem alguma caça que reforçasse o cardápio da semana… havia um espírito de camaradagem entre todos, como uma grande família. E, quando chegavam na Cidade Grande, que é como chamavam os centros urbanos, o choque cultural era enorme. Não existia aquela cumplicidade que até então fizera parte de suas vidas…

Acostumados a ter o horizonte sempre a vista, agora paredes de alvenaria tolhiam sua visão. Não mais tinham o rio caudaloso a poucos passos de sua morada, e peixe tinham que comprar de algum charreteiro que passasse por perto… as fábricas, onde os homens conseguiam suas colocações, simplesmente fechavam as portas e estes ficavam sem ver a luz do sol ou os pingos da chuva durante dez, doze horas, que era sua jornada de trabalho. Após um dia estafante, se reuniam em algum bar e, entre um gole de cachaça e outro, relembravam com saudades a vida que levavam a até algum tempo atrás…

Os mais novos seguiam em frente, mas aqueles com mais idade não conseguiam se acostumar com a nova rotina e acabam retornando às suas origens. Que também já se haviam modificado. E a saudade de um tempo que estava se esvaindo era seu único consolo, ao perceber que as verdes campinas iam pouco a pouco desaparecendo, as matas se encolhiam, o gado era deslocado para outras regiões…

Sim, o progresso tem um preço. E nem todos conseguem pagar tal tributo sem sofrer. Afinal, as doces lembranças de nossa infância e juventude são o alento que nos permitem continuar nossa jornada. E nossos pais, nossos avós, sofreram muito com a mudança do mundo que conheciam. Como consolo, apenas a poesia do homem do campo, recordando os bons tempos que vivia em sua querência, apreciando as estrelas e a lua prateada, ouvindo ao longe o lamento triste da coruja…

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