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Questão de tempo

Do nascer ao envelhecer, ‘esperando a morte chegar…’

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Autor/Imagem:
Armando Cardoso - Foto Editoria de Artes/IA

Roto ou esfarrapado já foram sinônimos de andrajosos, maltrapilhos, esmolambados, mulambentos e sujos. Hoje é moda. Vivemos uma época de bizarrices. Além de clean, uma calça, jaqueta ou camiseta rasgadas custam uma pequena fortuna. Nada contra, mas, felizmente, a preferência nacional ainda é o arrumadinho, especialmente entre aqueles que têm prazer em mostrar em público a segunda ou terceiras vias da identidade. Faço parte desse grupo, mas devo alertar que a segunda via não exprime qualquer mudança de sentido.

Na acepção da palavra, ela quer dizer apenas uma questão de tempo ou ainda continuar na mão única. Graças a Deus, enfrentei tudo de ruim em épocas passadas com galhardia, coragem e muito patriotismo. Apesar de ter passado longe do vírus, aproveitei bem a pandemia do Covid-19 e o governo que desdenhou da doença e acabou “culpado” pela morte de mais de 700 mil brasileiros. Mudei pouco os hábitos, mas revi conceitos, consolidei valores adquiridos e aprendi a valorizar pequenas e grandes coisas que avaliava desnecessárias.

Enfim, vivi momentos mais intimistas com minhas diferentes personalidades, perdoei os que insistem em não entender o que penso, amei ainda mais a família e os amigos, entendi com sobriedade os incompreendidos e, sobretudo, os entendidos, reconheci a importância do desconhecido, elogiei o belo, enalteci o semelhante e, o que é mais relevante, considerei quem ignorava como irmão do coração. Embora tenha vivido o auge do negacionismo, na prática testei positivo para o amor, para a paz e para a alegria.

Nada mais importante do que ter resistido ao golpe, aos golpistas e aos modismos mensais. Por conta da firme reação ao que é efêmero e às manias passageiras, hoje prefiro viver o silêncio dos inocentes, a resposta das crianças e a vitória em sequência dos democratas. Bom humor é a palavra de ordem. Inquestionavelmente, uma frase engraçada para refletir e filosofar com bom humor revela verdades que discursos sérios jamais alcançariam. Afinal, rir da vida é uma das formas mais honestas de entendê-la.

As bizarrices do mundo me fizeram crer que realmente o passado ensina, o futuro assusta e o presente notifica. Diariamente sou notificado de que o problema da consciência é a falta de um botão para silenciá-la. Mal ajambrado ou do tipo almofadinha, ontem eu era jovem. Atualmente faço barulho ao me sentar. Pior é sonhar com uma vida de rico e acordar com o saldo de sempre. Como me deixaram ser velho, estou no lucro. Como é lembrar que os da minha época inventaram a filosofia para entender a vida. Os de hoje criaram as redes sociais para fugir dela E do amor? Eles se escondem ou também fogem?

Embora tenha feito um trato com a morte, de não procurá-la e de não ser perseguido por ela, um dia terei de partir. Deixando aflorar minhas bizarrices, deixo antecipadamente registrado que, no dia da passagem, caso não descubram a causa da morte, saibam todos que morri por amar e ter saudades da vida. Enfim, nascer, crescer, viver e morrer são apenas capítulos diferentes da história de nossas vidas. O fato é que, às vezes, acho que vou morrer. Outras vezes, tenho certeza. Diante da ausência da dúvida, adianto que, como tenho horror a velórios, não sei se irei no meu.

Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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