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Alto da Maricota

Dona Gertrudes solta cobras e lagartos contra bajuladores

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Autor/Imagem:
Eduardo Martínez - Foto Produção Irene Araújo

Se ouvisse asneira, a velha Gertrudes, do alto dos quase 80, soltava cobras e lagartos. E nem adiantava contrariá-la, que o coice chegava certeiro. Nem mesmo o delegado do pequeno povoado Alto da Maricota, Paulo Ramos, Maranhão, tinha vez.

E lá estava aquela gente, a céu aberto, cercada por palmeiras de coco babaçu, comemorando não se sabe se aniversário de um ou casamento de outro. Certo é que o pobre do bode rodava fumegante na churrasqueira improvisada no chão.

Rodolfo, que há muito saíra da região para estudar na capital, era não mais que forasteiro por ali. Quase ninguém se lembrava do rapaz ou, se lembrava, era puro fingimento para forçar amizade. É que o moço era herdeiro e não custava nada bajular quem se deitava em colchão sobre tanto dinheiro.

— Ainda tenho na memória você montado num belo cavalo.

— Mas, seu Tião, nunca tive cavalo.

— Num sei se era seu, talvez fosse do senhor seu pai.

— Do papai?

— Um belo alazão, não era, Juvenal?

— Tenho cá minhas dúvidas, pois creio que era um tordilho.

— Tordilho ou alazão, tanto faz. Era um animal magnífico.

— É verdade. E o pequeno Rodolfo, firme nas rédeas, que nem príncipe.

Rodolfo a tudo escutava, maravilhado com os próprios feitos, dos quais não se recordava. Coisas apagadas da memória, mas que pareciam reviver depois de tantos elogios. Sim, agora ele se lembrava perfeitamente. Bem pequenino, mas desde sempre repleto de qualidades.

Gertrudes, bem ali ao lado, olhou com desdém para aquele povo. Cuspiu o pedaço de carne que há tempos mastigava, resmungou algo, que não foi entendido pelas pessoas.

— Melhor pôr a nado os patos.

— O quê, dona Gertrudes?
— Vou pôr a nado os patos.

— O quê?

— Pôr a nado os patos, homi! Pôr a correr as galinhas! Pôr os cavalos a relinchar! Que aqui tá carente de patrão pra tanta montaria.

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