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Cheia de autoridade

Dona Hilária era uma figura

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Minha mãe, afirmo sem resquício de modéstia, deveria ser matéria obrigatória nas universidades. E não porque possuísse muito estudo, mal sabia assinar o nome e só fazia contas miúdas com a ajuda dos dedos. E quem diz que estou variando, digo que mamãe era, que nem Garrincha contra os Russos, o elemento do caos. Quando você imaginava que ela fosse tomar uma direção, lá ia a minha velha, mesmo sem as famosas pernas tortas, assombrar os que a conheciam.

Dona Hilária, acredite, era o nome de mamãe. Dona, aliás, ela ganhou ao longo dos anos, como se tudo o que a sua vista alcançasse pertencesse a ela. E quem era besta de contrariá-la? Não que fosse mulher de posses, a questão era outra: autoridade.

Não pense você que mamãe era do tipo que dava respostas rápidas diante de questionamentos, ainda mais quando vinham carregados de convicções, geralmente ignoradas por ela. Dona Hilária encarava o interlocutor com aquele olhar que penetrava em aço como se fosse sabão. Fazia um silêncio prolongado, o que quase sempre deixava a pessoa impaciente e, certamente, cheia de dúvidas sobre a própria razão.

— Veja, Lúcio… Posso te chamar de Lúcio, né?!

— Sim, dona Hilária, fique à vontade.

Já que o sujeito dava brecha, minha mãe tratava de preenchê-la com um discurso que faria os do Fidel Castro parecerem notas de rodapé. Invariavelmente, o sujeito se redimia de tamanha petulância. Não sei se por não entender bulhufas do que minha velha queria dizer com aquela infinidade de palavras ou, então, se sentia convencido de que alguém que falava com tanta propriedade só poderia estar certo.

— Sim, dona Hilária, a senhora tem toda razão. Peço-lhe, encarecidamente, que me perdoe por vim importuná-la por bobagens.

Quando comecei a entender um pouco sobre a dinâmica do mundo, fui eu a questionar minha mãe. Ela me lançou aquele olhar típico, sorriu aquele sorriso de quem sabe que fez traquinagem, pegou minhas mãos e me puxou para perto do seu rosto.

— Jonas, meu filho querido, ninguém se interessa por verdades, mas por narrativas.

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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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