Ela e Deus
Douglas estava livre, leve e solto, mas não achava muita graça nisso
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No ano de graça de 1978, a vida de Douglas estava uma bosta.
Seu casamento havia acabado. Ele estava livre, leve e solto, mas não achava muita graça em tanta liberdade, leveza e soltura. Bebia demais e corria atrás de qualquer mulher (maior de idade, pelo menos isso) que respirasse. Em tais circunstâncias, sua carreira como jornalista havia subido ao telhado e, sentada na beiradinha, inclinava-se perigosamente para baixo.
Politicamente, Douglas colaborava no semanário Em Tempo – mas fazia isso sem tesão, simplesmente porque passé révolutionnaire oblige. E perigava estar entre os fundadores do PT, só que tinha uma preguiça macunaímica de voltar ao ramerrão das intermináveis reuniões (acabou não sendo cofundador do PT, pena, isso ilustra tanto uma biografia…).
Certa noite, Douglas estava bebendo num barzinho quando ela entrou. Era uma loura num vestido decotadíssimo, que lhe deu uma olhada de levantar defunto. “Não tô com essa bola toda”, pensou. “Deve ser uma profissional procurando cliente”. Mas era gostosa, maior de idade e respirava, então chegou junto pra ver qual era.
Raras vezes uma mulher foi tão solícita com ele. Ria de qualquer besteira que dissesse, tocava-lhe o braço o tempo todo. De repente, a loura descartou o charminho e começou, sem habilidade alguma, a direcionar a conversa para política – e logo para o Partidão.
– Você tem pinta de intelectual. Deve ter amigos no PCB, não tem? – perguntou.
A ficha caiu. “Polícia!”, pensou Douglas.
Ora, de 1963 a 1968 ele fora militante do Partidão. Fora expulso em boa companhia, com Apolônio de Carvalho, Mário Alves, Jacob Gorender e os demais quadros da chamada Corrente, esmagada em uma luta interna fraudulenta. Ele tinha muito a falar sobre o PCB, mas não para uma policial, por mais generoso que fosse o seu decote. E, sobretudo, não ia falar uma só palavra sobre o Em Tempo, Lula ou o partido em processo de criação.
-O PCB? – repetiu para ganhar tempo. – Uns incompetentes que nem sequer sabem fazer oposição!
Em seguida, para desbaratinar, o ex-quase-futuro militante adotou a postura de um geiseliano de esquerda. Não um hegeliano de esquerda, como o jovem Marx; travestiu-se de seguidor, crítico e reticente, mas seguidor quand même, do general Geisel. Louvou sua política industrializadora e as demissões dos militares linha-dura, o que limpava o terreno para uma eventual redemocratização. Falou uma porrada de abobrinha, e a fera pareceu desistir de suas investidas. As referências ao PCB tornaram-se cada vez mais raras, até cessarem de vez.
Mas Douglas estava na trilha de guerra, e se arriscou pela chance de catar a moça. Propôs que fossem ao seu apartamento.
-Tenho uma grande biblioteca sobre literatura e política (os olhos dela brilharam, com um retorno ao zelo profissional). Pois bem, corto meu saco se houver alguma publicação favorável ao PCB!
No apartamento, ele mostrou a biblioteca e desandou a falar mal do Partidão. Ela deve ter constatado a sinceridade do seu olhar, pois desistiu de interrogá-lo. Ou então já estava com segundas intenções, que nem ele.
Foram pra sala, sentaram no sofá e começaram a se beijar. E depois transaram. Não foi bom nem pra ela nem pra ele, mas fez parte daquela noite estranhíssima.
Quando a levava de volta a seu carro, Douglas teve de passar por uma blitz policial. Acontece que em 1977 ele tivera os documentos roubados e desde então dirigia sem carteira. Contou-lhe o problema; ela mostrou por um segundo um distintivo (ele não viu direito de qual órgão), abriu um sorriso e disse, confiante:
– Não esquenta, querido. Tá comigo, tá com Deus.
Nem foi necessária a carteirada, o carro não foi parado.
O resto é anticlímax. Douglas deixou-a junto ao carro, ela pediu o seu telefone, ele deu (com o número verdadeiro, vai que ela já havia anotado lá no apartamento e o estava testando), não pediu o telefone dela, ela não disse. Dada a transa ruim, acho que só queria botá-lo pra escanteio. E ele idem, logo esqueceu o nome (falso) que ela usava. Durante muito tempo, Douglas evitou conversas políticas pelo telefone e tomou cuidado para não ser seguido. Nunca notou nada, provavelmente os tiras concluíram que ele era um intelectual bebum inofensivo. Talvez tivessem razão.