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No trem

Drible na segunda-feira

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Dizem que pobre aprende a respirar com parcimônia para sobreviver em trem lotado, o que configura praticamente um pleonasmo na hora do rush. Segunda-feira, então, o desânimo estampado na cara do povo é ensurdecedor.

Segunda-feira, o tempo parece olhar com sarcasmo aqueles corpos amalgamados disputando cada espaço vazio, utopia cruel da ralé. Que se apertem, outro passageiro acabou de entrar.

Um tipo comum àquela gente. O sujeito retirou o aparelho celular do bolso. Deu um clique. As imagens correm. Futebol. Ledo engano, não é sobre o esporte bretão, é algo maior. Drible para cá, drible para lá. Um sorriso, olhares curiosos que logo se transformaram em gargalhadas. Uma senhora mais ao fundo, curiosa, estica os olhos:

— O que é?

Alguém responde:

— Não sei.

Gargalhadas se irradiam por todo vagão. A senhora, ainda intrigada, ainda tentando se aproximar, indaga:

— Gente, o que é?

Gargalhadas, gargalhadas, gargalhadas. Ela insiste:

— Ei, alguém pode me dizer o que está acontecendo?

O dono do celular, num gesto solidário, entrega o aparelho para o homem ao lado, que faz o mesmo para a jovem próxima que, por sua vez, repete o gesto até que chega às mãos pequeninas de uma garotinha, não mais de cinco anos. Ela sorri, vira a tela para a senhora e balbucia:

— Olha, vovó.

— Garrincha!

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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