Inspirado em Clarice Lispector
Duas mulheres
Publicado
em
Eu sou uma mulher que mora dentro de outra mulher.
A de fora tem sessenta e poucos, cabelo grisalho, unhas feitas,
a de dentro tem cinco anos e pergunta tudo.
A de fora paga as contas, varre a casa, sorri para o porteiro.
A de dentro senta no chão da cozinha e espera alguém chegar
com a chave que abre o mundo.
Dez anos.
Dez anos é um ovo que nunca quebrou.
Eu o carrego debaixo do braço, quente, vivo, perigoso.
Se eu aperto demais, sufoco.
Se eu solto, cai.
Às vezes, às três da manhã,
a de dentro sussurra:
“Você já viu que o silêncio tem cheiro?”
E eu sinto: tem cheiro de pão que ninguém comeu,
de roupa que ninguém vestiu,
de beijo que ficou na boca
e virou palavra nenhuma.
Eu me lavo, me penteio, me visto.
Mas por dentro
sou um animalzinho assustado
que aprendeu a andar em pé
e a dizer “estou bem”.
Deus me olha e não diz nada.
Talvez esteja esperando
que eu mesma me perdoe
por continuar viva
sem ter morrido de amor
como prometi.
Eu continuo.
Continuo
porque parar
seria confessar
que a solidão venceu.
E ela ainda não venceu.
Ela só sentou na poltrona
e ficou olhando.
Eu olho de volta.
Duas mulheres
dentro de uma só
brincando de quem pisca primeiro.
Eu não pisco.
Porque se piscar
posso descobrir
que a de dentro
já cresceu
e agora
sou só eu
inteira
e isso
é o mais assustador
de tudo.