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Nobre linhagem

Edelfo, o elfo

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Edelfo estava injuriado: naquela tarde ele, um elfo de nobre linhagem, um guerreiro cujas façanhas inspiraram o escritor britânico J. R. R. Tolkien em episódios marcantes da série O senhor dos anéis, teria de comparecer à festa de aniversário de uma menininha de 7 anos, chata pra dedéu. Pior, teria de se manifestar como uma fada pequenina, que poderia ser migona da Sininho de Peter Pan!

O elfo guerreiro suspirou. Tudo culpa do príncipe de sua espécie, que agora fazia questão de se apresentar como CEO do mundo das fadas. Sua trajetória evidenciava o fracasso da política de enviar elfos para universidades da dimensão dos humanos, para ampliar suas aptidões. Como se entidades de energia, quase imortais, precisassem disso! Depois de obter um diploma em MBA concedido por uma faculdade chinfrim do sudoeste dos Estados Unidos, o ex-príncipe, agora CEO, decidiu investir seus parcos conhecimentos em Administração de negócios em iniciativas para otimizar o emprego da mão de obra. Ao lembrar disso, Edelfo bufou de raiva. Mão de obra, ele e os demais elfos! Tudo culpa da escritora britânica J. K. Rowling, com os elfos domésticos da série Harry Potter. “Pelo menos o CEO não exige que trabalhemos como escravos para os humanos, como fez Rowling com o infeliz Dolby; a ideia é aparecer na dimensão deles para mostrar que esta se entrelaça ao mundo das fadas”.

Edelfo, o elfo, sorriu com desprezo e prosseguiu em suas reflexões. “Desnecessário tudo isso, a mitologia de culturas do mundo inteiro evidencia esse entrelaçamento, explorado, diga-se, por escritores como Shakespeare, na peça teatral Sonho de uma noite de verão; os Thuata Dé Danaan da Irlanda, os djinn dos desertos árabes e as mouras encantadas de Portugal, entre muitos outros exemplos, eram fadas, quer dizer, entidades de energia, quase imortais, que podiam assumir diferentes formas, humanas ou não humanas”.

O pobre elfo guerreiro estremeceu de raiva e medo, só de pensar na segunda possibilidade. “Formas não humanas… soube que aquele CEO maledetto pensa em obrigar-nos a nos manifestar como dragões da mitologia chinesa, botos mágicos da Amazônia brasileira, sátiros helênicos e unicórnios; e também como mantícoras, grifos, sereias e muitos outros seres de formas humanas mescladas às de animais. A ideia é trazer a mitologia para o mundo contemporâneo. Em princípio, nada contra; mas o filhodeumaegua quer mais, exige que apareçamos como anjinhos rechonchudos e vacas de presépio da mitologia católica. Aí é demais, o próximo passo vai ser nossa aparição como renas de Papai Noel, como o bom velhinho e, que os deuses não permitam, como o coelhinho da Páscoa!

Pela milésima vez, Edelfo pensou em organizar um levante contra o príncipe-CEO e, pela milésima vez, descartou a ideia. Uma revolução no mundo das fadas era algo inimaginável, a tigrada – sua espécie – era monarquista até a medula. Mas a ideia de uma conspiração palaciana, que resultasse em uma morte supostamente acidental, por um veneno discreto, imperceptível, tinha seus méritos… Só que a incorporação de um assassino teria de esperar.

Resignado, o quase futuro homicida transformou-se em uma fadinha fofinha, para comparecer ao aniversário da menininha chata.

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