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Asa Norte

Edmar, o ausente

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Autor/Imagem:
Eduardo Martínez - Foto Irene Araújo

Tinha amigos, era popular, pelo menos é o que Edmar pensava, até que se percebeu socialmente mudo. Sim, inaudível, como se todos ao redor fossem incapazes de ouvir o que ele dizia. Riam, é verdade. Até pareciam absortos pelas palavras supostamente inteligentes que eram expelidas pelos lábios do sujeito.

Foi no bar de sempre, bem ali na 709 Norte, em Brasília, que o homem notou os primeiros indícios de mera formalidade daqueles rostos. Rostos que ele jurava serem conhecidos, ainda mais depois de tantas e tantas rodadas de cerveja com tira-gostos variados. Mesmo assim, Edmar quis dar o benefício da dúvida aos amigos. Afinal, não poderia simplesmente abandoná-los assim do nada.

— Meu cachorro morreu.

Nenhuma mudança nas expressões dos tipos.

— Gente, meu cachorro morreu.

Por um instante, Luciano pareceu interessado pelo dito. Ele virou-se para Edmar e, aparentando cuidado, disse:

— Vai mais uma rodada, Edmar?

Mais uma rodada? Como assim? Ele havia acabado de dizer que o seu cachorro morrera. Não que tivesse um, mas ninguém ali sabia dessa informação. Ou sabia? Teria Edmar falado alguma vez que nunca tivera um cachorro? E por que falaria isso, já que tal assunto nem fazia parte do rol das confabulações costumeiras dos frequentadores de botequins?

— Fui demitido.

Sorrisos, vozes destoantes, tudo, menos ouvidos atentos ao que continuava saindo dos lábios do Edmar. Não que aquilo fosse verdade, ainda mais porque ele não era dos piores funcionários da repartição. Para sermos justos, diante do quadro medíocre, até se destacava.

— Matei meu vizinho. Gente, acredita que matei meu vizinho antes de vir para cá?

Nada! Nem esboço de surpresa. Obviamente que era mais uma mentira deslavada. Todavia, aquilo era, no mínimo, indício de crime. Como é que é? Matou o vizinho? Matou o vizinho e foi beber com os amigos no bar da esquina?

Incapaz de competir com tamanho descaso, pediu a conta. O garçom pareceu não o escutar. Levantou-se, dedo médio em riste para todos, virou-se de costas e foi embora. Nem foi notado.

Meia hora depois, Luís, entre uma tragada e outra, cutucou Luciano.

— Cara, e o Edmar? O que deu nele hoje? Será que aconteceu alguma coisa?

— Pois é, cara! Ele nunca foi de faltar. Mas vai ver o cachorro morreu ou foi mandado embora do emprego.

— Será?

— A gente nunca sabe. Só espero que não tenha enlouquecido de vez e matado o vizinho.

……………………

Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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