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Povo e governo

Eleger opressores é liberar o traseiro para o pontapé

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Autor/Imagem:
Mathuzalém Jr - Foto de Arquivo

Atribuída ao filósofo e escritor francês Joseph-Marie de Maistre, a frase “Cada povo tem o governo que merece” significa que, em sistemas onde o eleitor tem o poder de escolher seus líderes, os governantes refletem as qualidades, a falta de discernimento ou a apatia dos eleitores, sendo, portanto, uma consequência da própria sociedade. Em resumo, a expressão é frequentemente usada para chamar a atenção dos cidadãos para sua responsabilidade no processo democráticos. Vivemos uma democracia comumente ameaçada, mas perseguidamente plena.

De forma clara, isso quer dizer que os desmandos políticos são reflexo da incapacidade ou irresponsabilidade da população em usar seu poder de escolha. Por mais que alguns brasileiros mal-intencionados se mantenham firmes na defesa do autoritarismo fardado, os quatro anos de gestão de um cidadão denominado mito são a prova de que merecemos coisa melhor. E temos, apesar de os defensores do golpismo não aceitarem os novos e consolidados rumos da nação.

Associadas ao apoio ao radicalismo e à falta de lisura da centro-direita, as críticas à condução do país são parte do processo democrático. Conforme o ex-senador italiano Norberto Bobbio, não se pode falar de democracia onde falta liberdade de opinião. Que eles falem, ainda que, reconhecidamente, não saibam o que dizem. O fato é que não há surpresa alguma no diagnóstico negativo dos extremistas à direita sobre o sucesso do Lula 3. Mesmo que, nos bastidores, eles reconheçam os avanços sociais e econômicos, surpresa seria Luiz Inácio merecer elogios daqueles que se mantêm presos ao ódio e que temem o Lula 4.

Sem margem de erro, diria tratar-se da surdez e da cegueira utópicas e convenientes da meia dúzia que prefere o fanatismo à realidade. De modo objetivo, os cegos e surdos da política do caos engrossam a lista dos que apostam na tese de que sempre houve e sempre haverá um poder invisível e paralelo contra o Estado. Imaginem quando esse Estado é sinônimo de Luiz Inácio Lula da Silva. Lula é a antítese da norma de conduta de brasileiros que, além de superiores, se acham moldados para o poder absoluto, aquele em que só eles mandam.

Não costumo usar a ideologia como pano de fundo para minhas indagações, mas não há termo de comparação entre Lula e Bolsonaro como políticos, tampouco como gestores. Toda forma de contestação é válida. No entanto, que pelo menos respeitem a história de um e as fantasias de outro. Se, para os fanáticos, Luiz Inácio não é o melhor presidente deste século, em quem eles votarão? Michel Temer, Tarcísio de Freitas, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Ratinho Junior? Com a emoção que justifica os meios, mas não garante os fins, os citados integram o grupo da meia dúzia de fanáticos que detestam o sistema democrático. A ojeriza é explicada por conta da essência da democracia, que é a convivência harmoniosa das diferenças.

Para eles, igualdade, liberdade e participação são inegociáveis e, portanto, banidas das mesas da direita e da extrema-direita. Reverberando a sutileza dos versos do escritor moçambicano Mia Couto, definitivamente não precisamos de mais tempo, mas de um tempo que seja só nosso. Me parece que esse tempo nós já temos. Para mantê-lo, basta que sigamos a máxima de Josep-Marie de Maistre. Cada nação tem o governante que merece. Com é nossa a responsabilidade de escolha no processo democrático, que não nos esqueçamos jamais que se curvar diante dos opressores e dos aventureiros é o mesmo que liberar o traseiro para o pontapé pós-eleitoral.

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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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