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Renovação política

Eleger quem não entende do riscado pode significar um alto risco desnecessário

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Autor/Imagem:
Sonja Tavares - Foto de Arquivo

Independentemente de posicionamentos ideológicos, pensemos prioritariamente no país. Se a ideia é a da renovação política, tirar Luiz Inácio Lula da Silva, como querem alguns, para colocar Flávio Bolsonaro pode significar, a curtíssimo prazo, uma troca clássica de seis por menos um e meio. Lula é ruim? Pode ser, mas é bom para a maioria. Flávio é bom? Também pode ser, mas seus últimos gestos certamente repercutiram negativamente, inclusive no seio da minoria que topa qualquer negócio para vê-lo sentado na cadeira que um dia foi do pai.

Com todas as vênias, é bom ressaltar que não tenho nada contra a pessoa do senador Flávio Bolsonaro. No entanto, baseada na livre expressão e no meu direito constitucional de me manifestar livremente, tenho tudo contra o candidato da extrema-direita, consequentemente contra sua candidatura. A primeira pergunta que faço para mim mesma é simples: Eleito senador na esteira do pai, que experiência ele tem para governar uma nação continental e recheada de conflitos raciais, sociais, políticos e econômicos? Se me permitirem, eu mesma respondo: Nenhuma.

Não entender do riscado significa risco desnecessário. Será que estamos diante da clássica angústia do “e se”? A sensação de que não existe uma escolha perfeita pode ser ideologicamente paralisante e politicamente detestável. Não para quem jamais nega suas convicções ou muda de lado conforme suas conveniências. Ou somos ou nunca seremos fortes para combater o antagonismo apenas com ideias e propostas. Não é o que estamos vendo. Atualmente, o que define a política brasileira é o pragmatismo, o ódio, as tensões institucionais e os debates vazios sobre governabilidade e polarização.

Direita ou esquerda deixou de ser somente uma opção de voto. Hoje, ser daqui ou dali significa prestar e não prestar, ser mais ou menos brasileiro, ser patriota ou comunista. Enfim, qual a razão para que a Marcha para Jesus seja considerada uma manifestação de paz e de apoio ao conservadorismo, e a Parada Gay um evento diabólico, pró-petismo e simbolicamente uma questionável aberração aos princípios de moralidade, integridade, decência, ética, conduta e de bons costumes da “infalível” família brasileira.

Como um apagador na lousa, o brasileiro do século 21, particularmente o desta década, esqueceu que, da mesma forma que Jesus não vota, tampouco desune pessoas ou indica presidentes da República, o gay ou simpatizante não pode ser avaliado como um ser desprezível, na medida em que eles só querem ser o que são sem medo de preconceitos medievais e, portanto, bárbaros. São os de Jesus e os do Diabo que votam. Ou seja, mesmo de mandiocas diferentes, temos os mesmos direitos, pois somos todos farinha do mesmo saco.

Escolhendo bem ou mal o presidente da República, temos de respeitar a opção da maioria, ainda que o vencedor seja mais velho e mais feio do que o vencido. É isso que chamamos de democracia. É isso que significa pensar no país. Divergências políticas são, além de normais, necessárias. Por isso, mesmo preocupados com o “e se”, o máximo a que podemos nos permitir em relação ao resultado político é seguir à tese inspiradora do filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard. Embora embasado em contexto diferente, o ponto de vista de Kierkegaard é sobre a angústia da escolha. Nesse caso, abertas as urnas no dia 4 de outubro, qualquer que seja a decisão, virá o arrependimento. Ou não!

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Sonja Tavares é Editora de Política de Notibras

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