Curta nossa página


Candidato vence na urna

Eleição de Cristovam foi a vitória da persistência

Publicado

Autor/Imagem:
Hélio Doyle - Especial para Notibras/Foto de Arquivo

“Não foi uma campanha em que a gente tinha certeza de que ia ganhar. Só o Hélio Doyle que achava sempre que a gente ia ganhar”. Cristovam Buarque, em entrevista, 1994.

O cenário é outro, o tempo passou. Foi há 32 anos, a memória falha e fatos e nomes podem ser esquecidos ou turvados. Mas vale conhecer um pouco dessa história. Como dizem os historiadores, com frases diferentes, mas semelhantes, conhecer o passado é condição para compreender o presente e construir o futuro.

Cristovam Buarque era desconhecido da maioria dos brasilienses quando se candidatou a governador pelo PT. Tinha passado pela militância política em Pernambuco, na Ação Popular (AP), antes de se autoexilar na França, onde morou por três anos se doutorou em Economia. Voltou ao Brasil, morou nos Estados Unidos, prestou consultorias ao BID, ao BIRD e à Unesco e se tornou professor da UnB em 1979. Em 1985, com a redemocratização, elegeu-se reitor.

Ao deixar a reitoria, em 1989, um grupo de pessoas ligadas a Cristovam passou a se reunir para discutir a primeira eleição de governador em Brasília. Desse grupo participavam, ao que me lembro, Gustavo Ribeiro, José Roberto Arruda, Luiz Carlos Sigmaringa, Paulo Timm e eu. Certamente havia mais alguém. Como não se chegou a um consenso, cada um foi para um lado. Cristovam recusou o convite de Roriz para ser candidato ao Senado em sua chapa e se filiou ao PT em 1990, a convite de dirigentes nacionais e distritais, para se candidatar a governador.

Mas o partido optou pela candidatura de Carlos Saraiva e Saraiva, que, sem coligação alguma, ficou em segundo lugar, com 20,3% dos votos válidos. Joaquim Roriz, que havia sido governador nomeado, era amplamente favorito e se elegeu no primeiro turno. Uma ampla coligação de PDT, PSDB, PSB, PCB, PCdoB e PEB, com o senador Maurício Corrêa à frente, ficou em terceiro lugar, com 14,28%.

Em 1994, o PT lançou Cristovam como candidato ao governo. A candidatura já havia sido decidida pela direção do partido, mas Cristovam teve se submeter às prévias, obtendo 59% dos votos contra 26,3% de Saraiva e 14,3% de Paulo Bicca. Boa parte do PT não queria nem assumiu, de início, sua candidatura, que era mais bem aceita nos partidos aliados: PSB, PPS, PCB, PCdoB e PSTU. O PT tinha os candidatos a governador, vice e senador (Lauro Campos), O outro candidato ao Senado era Carlos Alberto Torres, do PPS.

Não havendo reeleição, o candidato de Roriz era o senador Valmir Campelo (PTB), o mais votado para deputado federal em 1986, depois de ter sido administrador regional de Brazlândia, do Gama e de Taguatinga. Valmir era favoritíssimo, pois havia sido eleito senador quatro anos antes, era conhecido e popular e o governo de Roriz era muito bem aprovado. As projeções eram de eleição no primeiro turno.

A segunda colocada nas pesquisas era a deputada distrital Maria de Lourdes Abadia (PSDB), a segunda deputada federal mais votada em 1986, tendo sido antes a primeira administradora da Ceilândia. Dizia-se que, havendo um improvável segundo turno, seria entre Campelo e Abadia. Lula disputava a eleição para presidente contra Fernando Henrique Cardoso, e estava liderando nas pesquisas.

Cristovam começou o ano, depois do carnaval, com 2% a 3% das intenções de voto nas pesquisas. Arlete Sampaio, vice-presidente do PT-DF, era a coordenadora-geral da campanha, já que o presidente regional, Geraldo Magela, era candidato a deputado distrital. Eu, então filiado ao PT, era o coordenador de comunicação (a convite de Cristovam e do presidente do PT em 1993, Luiz Rossi), Como Arlete foi escolhida como candidata a vice-governadora, eu assumi a coordenação-geral, cumulativamente com a comunicação, porque os principais quadros do partido estavam envolvidos com suas candidaturas ou coordenando campanhas proporcionais. Ninguém queria a função.

Poucos, muito poucos, acreditavam que Cristovam seria vitorioso. E poucos se engajaram inicialmente na campanha. Arlete escolheu a assessora de imprensa (havia duas candidatas) e o motorista de Cristovam. Inicialmente, só esses dois, Margarete e Edilson, acompanhavam o candidato em suas agendas, cumpridas no fusquinha de Cristovam.

A única pesquisa que fizemos no primeiro turno, quantitativa, foi coordenada pelo professor Luiz Gonzaga Mota. Não teve custo. Ela mostrou o favoritismo absoluto de Valmir e o desconhecimento e indigência eleitoral de Cristovam. Mas mostrou também que o PT era aprovado por quase 25% dos eleitores.

Definimos então a estratégia: alcançar esses 25% e, graças ao perfil mais amplo de Cristovam, ampliar para 30% a 35% e assim ir para o segundo turno. Alguns petistas e colunistas hostis ao PT reclamavam que o candidato deveria ser o deputado distrital Chico Vigilante, que em pesquisas aparecia na faixa dos 10% a 15%. Nossa resposta: Cristovam tem 2% e potencial para chegar aos 35% no primeiro turno. Chico tem 15% e não passa de 25%.

O então dono de instituto de pesquisa Soma, Ricardo Penna – que não era simpático a Cristovam – também explicou: o PT não é um teco-teco que decola em pista pequena e voa baixo, é um Boeing que precisa de muita pista e decola para o alto.

Nos primeiros meses, Lula era o favorito na eleição para presidente e as caravanas estavam na moda. Organizamos uma Caravana da Cidadania aqui: durante dois dias, 31 de maio e 1º de junho, Lula e Cristovam percorreram em um ônibus – protegido por dois batedores da PM – as regiões administrativas, parando em cada uma delas para um rápido comício ou encontro com a população. A caravana terminou com um comício na Torre de TV.

No ônibus – cujos lugares eram disputadíssimos, mas por causa de Lula – o engenheiro Hermes de Paula fazia, entre as cidades, uma exposição rápida sobre a próxima a ser visitada. Lula apreendia e usava as informações de Hermes nos discursos, Cristovam as ignorava.

Hermes nasceu em Sobradinho e conhecia profundamente o DF, pois trabalhava na Caesb. Clara Ant, a responsável pela agenda do Lula, havia me pedido que alguém que conhecesse muito bem o Distrito Federal o orientasse no ônibus sobre cada cidade. Eu escolhi Hermes por indicação de minha então companheira, Patrícia, que havia chegada aqui em 1958 e também conhecia muito bem todo o DF, por trabalhar na então SHIS. Como coloca-la no disputado ônibus seria nepotismo, ela me indicou o Hermes.

Depois da caravana, Hermes tirou férias e depois licença no trabalho e se incorporou ao pequeno grupo que acompanhava Cristovam. Foi fundamental, pois o candidato só conhecia o Plano Piloto, e assim mesmo pouco. Diziam que se fosse largado na Ceilândia não saberia voltar ao Plano.

Não havia dinheiro para a campanha, que dependia basicamente de doações privadas. O minúsculo grupo de empresários que apoiava Cristovam era liderado por Jorge Ferreira e um dos sustentáculos era Mauro Dutra. O professor e cineasta Pedro Jorge se ofereceu para montar a equipe de TV, a um custo bem baixo. Alugamos um estúdio no Teatro Dulcina e fazíamos os programas de rádio em um estúdio no Rádio Center. Eu que levava o programa editado nas emissoras, muitas vezes de madrugada e em cima do prazo. Trabalhávamos e nos reuníamos numa sala cedida por Ademar Sato, depois monge Sato, no Setor Bancário Sul. Não havia dinheiro para imprimir material, além de um panfleto básico.

O conselho político, integrado por representantes dos partidos coligados se reunia semanalmente. Nele estavam, entre outros, David Emerich (PSP), James Lewis (PSB), Fredo (PCdoB) e Trajano Jardim (PCB). O tesoureiro da campanha era o petista Amauri Barros e entre os coordenadores estavam os também então petistas Antonio Carlos de Andrade, Clayton Avelar e Jodette Amorim. Os coordenadores trabalhavam com muita autonomia e Cristovam raramente participava das reuniões do conselho ou dos coordenadores. Seu trabalho era buscar votos.

Enquanto Cristovam crescia muito devagar nas pesquisas, enfrentávamos o fogo amigo. Surgiam ideias e contestações de todos os lados, mas estávamos seguros de nossa estratégia e as enfrentamos. Não faltavam palpiteiros e portadores da solução milagrosa que levaria Cristovam à vitória.

Houve, por exemplo, uma proposta, endossada pelo presidente do PT-DF, para Cristovam romper com o Correio Braziliense, então o principal jornal de Brasília, com grande circulação. Amigos do candidato queriam esconder a sigla PT, mesmo sabendo que o partido garantia 25% do eleitorado e que seria fundamental ter seus militantes nas ruas.

Deu trabalho tentar convencer dirigentes e militantes de que Cristovam não deveria atacar a candidata Maria de Lourdes Abadia e polarizar com ela, em disputa pela passagem ao segundo turno. Queriam a velha fórmula da “farinha do mesmo saco”. Não entendiam que tínhamos de polarizar com Valmir, o candidato da situação, e ter o apoio de Abadia no segundo turno – como veio a acontecer.

Tive muitos problemas com Cristovam, que inúmeras vezes descumpria a agenda para fazer as coisas da cabeça dele, e mostrava dificuldade em exercer o papel de candidato, submeter-se ao diretor de TV nas gravações, aceitar ler no teleprompeter, interagir naturalmente com eleitores. Convencido por palpiteiros, achou que a fórmula milagrosa para conquistar os eleitores de assentamentos criados por Roriz eram vídeos-cartas que gravava às escondidas. Não adiantava dizer a ele que mesmo os moradores que tinham videocassetes, e eram poucos, iriam preferir assistir as novelas.

Cheguei a anunciar meu afastamento da campanha depois de um atrito mais forte, mas Arlete foi à minha casa me convencer a voltar. O candidato do PT ao governo em Goiás, Luís Antônio, um empresário de Anápolis que tinha negócios também em Brasília, estava sempre por aqui e via nossas dificuldades em lidar com Cristovam. Ele deu uma sugestão: sessões de neurolinguística.

Luís Antônio sugeriu trazer um psicólogo de Campinas para realizar sessões de neurolingística com Cristovam. A princípio não dei importância, até que ele disse que pagaria as despesas. Para minha surpresa, Cristovam aceitou, fez o “curso” e até o fim da campanha tivemos a presença constante, aqui, do professor Fernando Dalgalarrondo, com resultados muito positivos.

Grande parte do meu tempo era ocupada em administrar as dívidas assumidas. As cobranças chegavam pelo bip. O Dulcina avisou que iria nos despejar por falta de pagamento e tive de informar ao Cristovam, o que nunca fazia para preservá-lo dos problemas. Ele então me deu um cheque em branco e disse que depois veríamos como resolver. Adiamos o despejo, mas quando informei ao Cristovam o valor do cheque ele se apavorou: tinha entendido errado e não tinha aquela quantia na conta. Entrou no cheque especial e Amauri e eu saímos em busca de algum dinheiro para ressarcir o candidato.

A situação não era nada boa. Não havia dinheiro, as dívidas aumentavam, Lula estava sendo superado por Fernando Henrique, Cristovam se mantinha estacionado nas pesquisas, poucos acreditavam nas suas possibilidades e a militância não ia em peso às ruas. Faltando 36 dias para a eleição, Cristovam tinha 10%, Abadia tinha 24% e Valmir 43%. Praticamente, só dois candidatos, Chico Vigilante e Pedro Celso, levavam Cristovam para suas agendas, especialmente com rodoviários e vigilantes.

Decidi, então, mudar a equipe de TV e rádio, que não estava sabendo como lidar com Cristovam e não apresentava os resultados que precisávamos. Maninha, que também era do PT e candidata a distrital, havia sugerido a agência Fórum, de Dimas Thomas, que se dispunha a fazer gratuitamente o primeiro turno e receber apenas pelo trabalho no segundo turno, salvo algumas despesas. Como havia encontrado mais um dos pouquíssimos que acreditava em segundo turno e gostei da conversa, acertei com Dimas e reorganizamos a comunicação.

Montamos o estúdio da nova produtora, Gaia, em uma casa em uma das 700 Sul e, graças aos nossos militantes na CEB conseguimos fazer ligações que nos garantiam a energia necessária. A agência de Dimas tinha salas no Centro Empresarial Brasília e arranjamos gratuitamente uma sala para a coordenação de comunicação no mesmo andar.

Faltava uma ideia forte para a campanha, por isso sugeri a Cristovam que lançássemos publicamente a proposta dele de uma bolsa para incentivar as famílias a matricular e manter seus filhos na escola. Cristovam relutou de início e havia muitos no PT que eram contra, por considerar a proposta assistencialista. Mas Cristovam aceitou, desconhecemos as objeções absurdas e demos à ideia, depois de algumas discussões, o nome de bolsa-escola. Lançamos em uma entrevista à imprensa, que não acreditou muito na novidade.

Mas, com a bolsa-escola e a nova equipe, integrada também por Rubens Araújo, redefinimos a campanha. Dimas e sua turma criaram uma nova estética e souberam como domar e dirigir Cristovam, completando o trabalho de Dalgalarrondo. O desempenho de Cristovam diante das câmeras melhorou. Ele ia bem nos debates na TV. Na TV, a ideia da bolsa-escola pegou. Cristovam começou a crescer nas pesquisas e a militância se animou a ir para as ruas.

Eu tinha um contato próximo com Ricardo Penna, que publicava suas pesquisas no Correio Braziliense, pois havíamos sido colegas de colégio no Rio, no primário, e aqui em Brasília no segundo grau. As pesquisas mostravam nosso crescimento, mas ainda em terceiro lugar e com Valmir ganhando no segundo turno. Ricardo, porém, antecipou: se nosso crescimento se mantivesse, iríamos para o segundo turno contra Valmir.

A virada começou com outra decisão polêmica. No programa de TV, Cristovam criticou o governador Roriz por uma ação eleitoreira de distribuição de lotes. Vários candidatos a deputado distrital — entre eles, de novo, o então presidente do PT-DF – reclamaram e disseram que Cristovam estava cometendo suicídio. Mas eles estavam errados e nós estávamos certos, e Cristovam começou a subir nas pesquisas.

Vimos então que era o momento para procurar Abadia, ainda em segundo lugar. O intermediário foi o deputado Luiz Carlos Sigmaringa Seixas, que era candidato ao Senado pelo PSDB. Fomos à casa dela – se não me esqueço de alguém, éramos Cristovam, Arlete, Amauri, o empresário Farid Swann e eu. Lá estavam Sigmaringa, provavelmente Gustavo Ribeiro e o marido de Abadia, jornalista Nelson Pantoja.

Cristovam cumpriu o roteiro desenhado por nós com Sigmaringa: disse a Abadia que estávamos lá para dizer que, se ela fosse para o segundo turno contra Campelo, teria nosso integral apoio. A resposta de Abadia foi imediata: se fosse Cristovam a passar ao segundo turno, teria o apoio dela, mesmo sendo Campelo de um partido aliado ao PSDB na campanha de Fernando Henrique. Poucos dias depois, em 19 de setembro, Cristovam ultrapassou Abadia, em empate técnico. Continuou crescendo nos últimos dias da campanha, com militantes e bandeiras tomando a rodoviária (onde imperava o Marcão da Rodoviária) e as ruas do Plano Piloto. Havia uma onda vermelha na cidade.

Cristovam teve mais votos do que indicavam as pesquisas e passou para o segundo turno, em 3 de outubro, com 37,18% dos votos, enquanto Campelo ficou em primeiro com 39,65%. Abadia teve 20,18%. Fomos para o segundo turno certos da vitória, mas essa é outra história.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.