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Prazo esgotado, Bolsonaro

Eleitor vira São Tomé e recusa desculpa chororô

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Foto/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto José Dias

Um velho ditado popular afirma que todo araruta tem seu dia de mingau. Embora duvidoso do ponto de vista do crédito, o significado do dito é bastante simples. Ele quer dizer apenas que tudo que sobe um dia desce ou que um dia é da caça e o outro do caçador. Simples assim? Nem tanto. Meu problema é com aqueles que, deliberadamente, engavetam o prazer de se sublimar (tornar-se sublime) e de repente optam por um mea culpa. Foi o que fez nessa segunda-feira (12) o tenente presidente. Durante entrevista ao podcast evangélico Collab, sua excelência mudou de tom e afirmou que, caso não seja reeleito em 2 de outubro, irá “passar a faixa” presidencial e “se recolher”. Com todas as letras, disse que, com sua idade, sendo derrotado, não tem mais nada a fazer aqui na Terra, além de ser presidente.

Na verdade, avalio o que foi dito como tentativa de se desculpar pelo que não fez e pelo que fez de errado. Tarde demais, principalmente para quem fez muito pouco. Sinceramente, não acredito, pois, apesar da repercussão, a resposta foi caseira. Por isso, mais uma vez, busco a Bíblia (Lucas 23:34) para parafrasear uma expressão muito utilizada por Jesus: “Pai, perdoa-lhes pois não sabem o que fazem”. Ou será o que dizem. Para mim foi demais. Talvez a solução do problema existencial do presidente seja de fácil solução. Reúna extemporaneamente o Centrão e sua rapaziada e tente aprovar, com a rapidez exigida pelo tema, uma emenda constitucional devolvendo o Brasil aos tempos monárquicos. Aí ele vira rei e tudo fica resolvido.

Será? Claro que não. Nunca tive um tête-à-tête com a família real, mas acho muito complicado a função de monarca. Portanto, para quem até agora não conseguiu ser o mandatário dos sonhos da maioria, o melhor será mesmo o recolhimento. Não é o que desejo, mas, se houver necessidade, desde já me solidarizo com a decisão do mito. Realmente é muito cansativo ser presidente de qualquer república. Imagina de uma nação continental, carregada de idiossincrasias, sufocada pela fome, isolada do mundo, de propriedade exclusiva de um grupo de enlouquecidos fanáticos e, o que é pior, hoje dividida entre pessoas do bem (os apoiadores do governo) e a multidão do mal (os eleitores que torcem por novos ares).

Temos de respeitar a vontade do moço. Entretanto, faz dois dias venho matutando e ainda conclui coisa alguma sobre a frase “não tenho mais nada a fazer na Terra”. Sei lá!! E nem quero saber. Melhor esperar dezembro chegar. Falando sério, passar a faixa ao vitorioso é uma obrigação de qualquer líder derrotado. Se recolher, é uma decisão de foro íntimo. Então, acataremos o que dele vier. Voltando às dúvidas, é difícil acreditar em alguém que decide mudar da água para o vinho poucos dias antes de seu único sonho de consumo: a reeleição. A exemplo de São Tomé, prefiro (como de resto milhões de brasileiros) aguardar as próximas horas, dias ou semanas. Em resumo, o tempo dirá quem tem razão, isto é, se as respostas foram honestas. O que sei é que desculpas de última hora não mudam quadros, não sensibilizam eleitores descrentes. O desejo de mudança já está no coração da maioria.

Enquanto aguardamos as cenas futuras da novela protagonizada por esse personagem ainda fora da curva, vale a pena registrar que, antes ou depois, esse posicionamento foi divulgado paralelamente aos números da última pesquisa de intenção de votos, cujo resultado consolida uma expressiva vantagem do outro candidato. Pelo sim, pelo não, entendi as frases como um recuo de folhetim, ou seja, para inglês ver. Em outras palavras, para enganar eventuais incautos, ingênuos ou destituídos de malícia. Enfim, eu ainda pago para ver. De longe e com meu título já lustrado e marcado com o nome de minha preferência, transmito ao presidente da República que o mea culpa talvez fizesse mais efeito se feito em rede nacional. Desculpas para petit comité cristão se perdem na poeira.

Reitero que o público escolhido é de casa. É como se a conversa fosse silenciosa. Quero dizer que o eleitorado atingido pela série de grosserias e de ataques misóginos, homofóbicos e racistas não foi alcançado. Acho até que, nessa altura do campeonato, eles nem querem mais ser alcançados. Pensando como leigo, entendo que somente um novo e urgente adjetivo será capaz de garantir fôlego político à sua excelência até 2 de outubro. Agindo como analista de porta de botequim, mágico pode ser uma ótima sugestão. Quem sabe ele não tem um coelho para tirar da cartola. Improvável, considerando que o Brasil que ele diz ser exemplo para o mundo é uma indecência para o planeta. Depois do que li e ouvi, apenas uma concordância: que seja feita a vontade de Deus. Ao que parece, os propósitos de Deus, o Deus de todos, são diferentes dos dele e de seus apoiadores.

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