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Asa Norte

Elias, bancário, queria ser poeta

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Autor/Imagem:
Eduardo Martínez - Foto Irene Araújo

Elias, bancário por falta de melhor opção para ganhar o pão, queria mesmo é ser poeta. Aliás, até era, apesar das estrofes capengas que, desde sempre, lhe provocavam ânsias de desejos, logo transformadas em vômitos. Coisas de artista, dizia tia Lúcia, que apoiava o sobrinho, enquanto Mauro, o pai, apenas conseguia enxergar aquilo como desperdício de papel e caneta.

Aos 42 anos, o sujeito saía do trabalho, passava no Bar do Bosco, ali na 709 da Asa Norte, em Brasília, onde todos pareciam saber que a mesa do canto, quase encostada à parede, era sua por tradição. Pedia uma cerveja, que logo se transformava em duas ou três, conforme a companhia. Nada além disso, pois precisava ir trabalhar no dia seguinte.

Sexta-feira, então, era a própria derrota, quando o sábado era destinado para que ele se recuperasse da ressaca. E ficava nessa até o domingo, quando tentava controlar as saídas ou, então, fingia que não estava em casa para ninguém ir incomodá-lo. Era o dia de fazer rabiscos. O problema é que lhe estava faltando inspiração.

Na segunda-feira, acordava por volta das 8h, quando preparava um breve café amargo. Para acompanhar, no máximo meia fatia de pão, já que o apetite costumava lhe faltar durante a manhã. Tomava um banho e se arrumava para ir trabalhar na agência do Banco do Brasil, onde era caixa.

O homem tinha uma queda por Gertrudes, gerente de contas. No entanto, faltava-lhe coragem para convidá-la para um cinema ou um café. Jantar? Eis que havia um empecilho, não dele, mas dela, que parecia viver um tumultuado romance com Fábio, o marido.

Elias sabia distinguir quando a quase amada e o esposo atravessavam fases sorridentes ou ruins. E elas contrastavam de maneira estranha na sua mente. Ciúme, inveja, raiva, pena do próprio ser que se transformara.

Tentava escrever sobre Gertrudes. Quando conseguia produzir algo que o agradava, logo amassava a folha e, para não cair em qualquer tentação, tacava-lhe fogo.

Depois de uma semana carregada de conversas com amigos de copo, coroada com uma bebedeira de fazer inveja a qualquer exagero, eis que o sábado se tornou curto para recuperar a razão. E o domingo se fez tempo de reflexão, que jurou cumprir a decisão de, finalmente, chamar Gertrudes para sair. Sim! Isso mesmo!

O gajo acordou mais cedo do que de costume, tacou um pouco de leite sobre o café sempre preto, passou generosa quantidade de manteiga em duas fatias de pão. Teve certeza de que a vida o chamava e, por isso, carecia de energia para encarar o que fosse preciso.

Mal pisou na agência, buscou com os olhos a linda Gertrudes. Lá estava ela, sentada à mesa, mexendo no computador. Que cabelos lindos, que sorriso perfeito, que olhos magníficos. Castanhos como se fossem duas avelãs maduras. Decidido, foi em sua direção, mas eis que Francisco, outro colega, se aproximou e o puxou pelo braço.

— Elias, preciso te contar uma coisa.

— Agora não posso.

— Por que não?

Aquele “por que não?” desestabilizou por completo o homem. Nem prestou atenção no que saía dos lábios do Francisco. Maldição! Era como se o cara estivesse falando debaixo d’água, dava para ouvir o som, mas nada inteligível. Elias começou a se desesperar e, por um momento, imaginou-se empurrando o chato de última hora, mas lhe faltou ímpeto, ainda mais quando viu que a porta do banco se abriu para a multidão de clientes entrar.

Elias passou o dia remoendo sua falta de sorte, até que o tempo de ir embora chegou. Já na saída, conseguiu trocar algumas palavras tolas com Gertrudes, que aguardava o marido. O bom humor da colega indicava que ela e Fábio estavam na fase romântica. E teve certeza disso assim que a mulher enxergou o esposo do outro lado da rua. E foi quando aconteceu o seguinte interlúdio:

— Estou vendo que você anda ansioso, Elias.

— É verdade. Estou ansioso pra começar a namorar e abandonar os meus amigos.

Fábio se aproximou, beijou a mulher, cumprimentou o Elias e, em seguida, o casal se despediu. Todavia, antes de desaparecer na esquina, Gertrudes gritou:

— Elias, você vai conseguir! Torço muito por você!

……………………

Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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