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Crime inafiançável

Em política, ladrão que rouba ladrão, jamais terá 100 anos de perdão

Publicado

Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto Editoria de Artes/IA

Sempre soube que o boteco é igual a caverna do dragão. Digo isso porque, basta eu ameaçar ir embora, para acontecer algo novo e me obrigar a permanecer no recinto onde acontece de tudo. É no botequim que a gente descobre não haver diferença entre a mulher maquiada e a onça pintada. Em época de eleição presidencial, aquela que determinado candidato mente tanto que ninguém mais acredita em suas verdades, o chamado pé sujo nos permite viajar pela imaginação popular e, simultaneamente, pelo conhecimento do povo que muitos denominam de analfabetos.

Esses podem não conhecer as palavras bonitas, mas sabem tudo da vida. Por exemplo, foi entre um gole e outro que descobri a origem do termo fake, não aquele fartamente utilizado por aquele ex-presidente para encobrir suas mentiras. De origem mineira, o vocábulo é muito usado para descrever uma pessoa que não é atraente, tipo fulano é fake dói. Simples como lembrar ao fracassado presidenciável da extrema-direita a dolorosa, mas exata expressão: O que vale um pum para quem está todo lambuzado, e vai ficar pior?

Sentado de frente para o nada e ao lado do tudo, o sábio homem do povo sabe que, se acontecer algo ruim, ele tem de beber para esquecer; se acontece algo de bom, é beber para comemorar; se não acontece nada, é beber para que aconteça alguma coisa. É a filosofia de boteco misturando ironia, sabedoria popular e doses de realidade. Contrariando os pastores evangélicos e os padres conservadores, a vida realmente é igual a uma cerveja gelada: curta, intensa e ofertada para ser apreciada até o último gole.

Sou desses e, às vezes, daqueles que, caso falte amor, peço para descer mais uma, por favor. Só não aceito na conversa gente chata com rede social. A mesa de bar é um altar para celebração. Por isso, os fulanos que adoram ser chamados de ciclanos não frequentam os bares porque, nas mesas, não há espaço para a cobrança de dízimos, tampouco para pedidos de votos para os que transformam histórias da carochinha em recibos de loteamentos da Terra Brasilis. Aliás, mais sério do que qualquer púlpito só o boteco, local em que acusar o vizinho de balcão ou o companheiro de copo de ladrão sem provas é crime inafiançável.

Bar sério é aquele que proíbe se falar de política enquanto o orador e os ouvintes estiverem sóbrios. A máxima se abastece do princípio lógico de que bêbado e político não falam nada que se aproveite. Por exemplo, em que outro ambiente do mundo podemos ouvir pérolas do tipo o cúmulo do narcisismo é se masturbar olhando para a própria bunda no espelho ou a mulher elegante é um conjunto de curvas capaz de deixar reta a única curva que o homem tem. Talvez no Congresso Nacional, onde as excelências não estão nem aí quando ouvem que, no Brasil, política e corrupção são sinônimos de arroz com feijão.

Para minha alegria, ao contrário dos políticos mentirosos e dos candidatos fakes, os amigos do boteco são imorríveis. Como no momento é mais confiável falar sobre o tempo do que do Brasil da extrema-direita e da direita, minha opção será sempre pela sociedade dos poetas de botequins. Segundo eles, daqui a alguns meses esses vírus chamados políticos serão somente uma lembrança, pois todos estarão juntos da santidade Olavo de Carvalho. Enquanto isso, no boteco, eu, você, Hebe Camargo, Dercy Gonçalves, Clodovil, Gugu Liberato e o Sílvio Santos estaremos morrendo de rir deles. Como diz a Bíblia do bebum, o vagalume é um inseto que só brilha por causa de uma banda da bunda. Como os políticos só tem uma bunda na banda, poucos conseguirão brilhar quando se perderem no buraco.

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Wenceslau Araújo é Editor-chefe de Notibras

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