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O Lado B da Literatura

Emílio de Meneses, o grande poeta esquecido

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Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Arquivo

Emílio de Meneses (1866-1918) escrevia em língua culta, obedecia ao rigor da forma e produzia versos dentro do melhor figurino parnasiano. Mas não foi exatamente com os poemas que conquistou a posteridade. Sua verdadeira arma era a língua, sempre afiada e quase nunca misericordiosa.

À medida que suas tiradas se espalhavam pelos cafés, redações e rodas literárias do Rio de Janeiro, a obra poética foi sendo empurrada para segundo plano. Emílio acabou transformado numa espécie de personagem de si mesmo. Contaram tantas histórias a seu respeito — e repetiram tantas outras — que hoje é difícil saber onde termina o homem e começa a invenção.

Seu nome completo era Emílio Nunes Correia de Meneses. Nasceu em Curitiba, em 4 de julho de 1866, único filho homem numa casa com oito irmãs. Vinha de uma família de poucos recursos e começou a trabalhar ainda adolescente, na farmácia de um cunhado. Aos 18 anos mudou-se para o Rio de Janeiro, onde logo se aproximou dos jornalistas, intelectuais e boêmios.

Em 1888 casou-se com Maria Carlota Coruja, filha do educador Antônio Álvares Pereira Coruja. No ano seguinte tentou a vida como escriturário em Paranaguá, mas não demorou a voltar. Em 1890 já estava novamente no Rio. A cidade, afinal, combinava mais com ele.

Durante o Encilhamento, Emílio arriscou dinheiro na Bolsa, enriqueceu depressa, cercou-se de luxo e começou a colecionar obras de arte. Como aconteceu com muita gente naquele período de euforia financeira, também empobreceu depressa. Voltou aos jornais e aos botequins sem perder a pose nem a disposição para a maledicência.

Na imprensa, publicou poemas satíricos sob vários pseudônimos. Foi Neófito, Gabriel de Anúncio e Emílio Pronto da Silva. No Correio da Manhã, assinava a seção “Pingos e Respingos” como Cyrano & Cia.

Nos livros aparecia outro Emílio, mais grave e interessado na morte. Publicou Marcha fúnebre, no início da década de 1890, seguido de Poemas da Morte, em 1901, Dies irae: a tragédia de Aquidabã, em 1906, Poesias, em 1909, e Últimas rimas, em 1917. A poesia séria era ortodoxamente parnasiana. O poeta cômico, porém, acabou vencendo a disputa pela memória.

Uma das anedotas mais conhecidas começou quando um amigo resolveu provocá-lo:

— Não vou à exposição de cereais; basta-me você: é milho.

Emílio devolveu na hora:

— Você hoje está com a veia.

Quando o sujeito, percebendo o perigo, tentou ir embora, ouviu:

— Não se evada.

Emílio ainda o fez sentar-se novamente:

— Sentei-o!

E encerrou a conversa com outra rajada:

— A ti não intrigo, somente humilho.

Aveia, cevada, centeio, trigo e milho. O amigo havia começado a brincadeira, mas não calculou que estava enfrentando um profissional.

Noutra ocasião, ao despedir-se do membro de uma igreja, ouviu dele:

— Vou para o Apostolado. E você?

— Eu vou para o lado oposto.

Com Emílio era assim. Podia perder o amigo, a oportunidade ou alguma futura proteção. A piada, nunca.

Bastos Tigre, que conhecia bem o perigo daquela língua, chegou a pedir auxílio aos céus:

Livrai-nos, santo Deus, dos inimigos nossos
E da língua fatal do Emílio de Meneses.

Não parecia exagero. Perto dele, até uma notícia banal de jornal podia terminar em maldade.

Guimarães Passos, poeta tuberculoso, publicou seu Tratado de Versificação Portuguesa e pretendia empregar o dinheiro obtido com a venda do livro no tratamento da doença. Emílio leu a notícia e não teve qualquer compaixão:

— Desde que o conheço, tem tratado de ver se fica são!

Ruy Barbosa também não escapou. Em plena campanha presidencial, o grande jurista gabava-se de estar “em grande forma”. Emílio ouviu aquilo e lhe dedicou uma quadrinha:

Ao ouvir-lhe a gabolice
Maria Augusta se abraza:
— Se tem tanto quanto disse,
Por que não o exhibe em casa?

Maria Augusta era a mulher de Ruy. Não consta que o casal tenha achado graça.

Outra história situa Emílio num bonde quase lotado. Uma cantora famosa, tão obesa quanto ele, conseguiu acomodar-se a seu lado. Diante do aperto, o poeta disparou:

— Oh, atriz atroz, atrás há três!

Monteiro Lobato contou que, depois de uma conversa com Emílio, voltou para casa com os músculos do rosto doloridos de tanto rir. Era um homem capaz de dominar uma roda inteira, embora parte das pessoas talvez risse também por prudência. Afinal, nunca se sabia quem seria a vítima seguinte.

No anedotário, Machado de Assis aparece como um de seus adversários. A tradição atribui ao presidente da Academia resistência ao nome de Emílio, principalmente por causa das zombarias dirigidas a Mário de Alencar, seu protegido. Uma antiga maledicência, jamais comprovada, chegava a apresentar Mário como filho de Machado.

Quando Mário de Alencar foi eleito para a Academia, Emílio fez aquilo que sabia fazer melhor:

A panelinha da litteratura
Que ferve no fogão da Academia,
Vai frigir, em tenríssima fritura,
O “enfant-prodige” da burocracia.

Aqui, porém, convém separar a história da fofoca. A Academia informa que Emílio poderia ter integrado seu grupo fundador, em 1897, mas os preconceitos contra sua vida boêmia pesaram. Não há comprovação de um veto pessoal de Machado. Emílio seria eleito somente em 15 de agosto de 1914, para a cadeira 20, seis anos depois da morte do autor de Dom Casmurro.

O problema com a Academia veio depois da eleição. Seu discurso de posse desagradou à direção da casa, que considerou alguns trechos incompatíveis com as praxes acadêmicas e exigiu alterações. Emílio protelou as emendas durante quatro anos.

Já doente e impossibilitado de sair da cama, pediu para tomar posse por carta, em abril de 1918. A autorização foi concedida, mas ele morreu antes de ocupar formalmente a cadeira. Conseguiu ser imortal sem passar pela cerimônia.

Emílio de Meneses morreu no Rio de Janeiro, em 6 de junho de 1918, aos 51 anos. Deixou livros, colaborações espalhadas pela imprensa e um anedotário maior do que sua obra publicada. A piada quase devorou o poeta. Passado mais de um século, talvez seja hora de recuperar os dois.

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Daniel Marchi é poeta, contista, advogado e professor universitário no Rio de Janeiro. Editor do Café Literário e fundador da Editora Fava, é autor de A Verdade nos Seres (poesia, 2024) e prepara Território do Sonho (contos, 2026). @prof.danielmarchi

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