Ubuntu
Empatia e lacração
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“Eu sou porque nós somos.”
(UBUNTU, palavra africana de empatia e amor)
Era do “Já era” e do desgaste.
Empatia virou termo de viralização tão desvalorizado que aparece nas redes das Bigtechs como forma de lacração.
Lacrar, Lacrar, Lacrar até não poder mais!
Vivemos o dia a dia com uma postura despreparada e ansiosa, como se a vida nos devesse a concretização de cada desejo sonhado.
Somos arquitetos de sonhos ancorados em pó de fumaça, nuvens de areia, e, ao mesmo tempo, perambulamos tontos com lanternas toscas à procura de alguma luz.
Estamos sempre descendo a grande onda à espera da queda, da “vaca”, da torre de água salgada que afoga e quebra todos os dias a nossa velha prancha de surfar a vida.
Sonhamos com “cousas concretas”; com o amor e com a paz absolutos, com o sucesso, a saúde plena e muito dinheiro no bolso, como se fosse fácil.
Não é; na verdade, na vida de cada um “não há almoço grátis”.
Entretanto, esquecemos – ou fingimos esquecer -, que a realidade é uma tela turva, um vitral digital a ser estilhaçado em fragmentos de fatos dos quais ficarão apenas as narrativas, as ficções.
O que chamamos de Realidade, não se apresenta como uma foto iluminada, mas como um painel de múltiplas interpretações, onde cada ser animado ou inanimado projeta sonhos e sombras.
Insistimos na óptica bipolar: sucesso/fracasso, brilho/opaco, quente/frio, finito/infinito.
E seguimos… pintores de molduras de isopor, frágeis, leitosas e desbotadas nos esquecendo do todo do quadro, via de regra, pastoso, mistura, de cores indefinidas e repleta de desafios.
Definitivamente, viver não é brincadeira, não!
E A TAL DA EMPATIA?
Pois então, a palavra UBUNTU, de origem africana, tribal, milenar, representa exatamente a Empatia: “Eu sou porque nós somos”.
Todos os dias deixamos de praticá-la na vida real.
E quanto mais alta a árvore, maior o tombo do galho.
O mergulho no abismo é o centro da vertigem real e desumana.
Passados os anos, percebemos segredos que facilitam: sonhar, sim, mas com os pés presos no barro das estradas movediças. Não perder a imaginação, o sonho, porém dominando a fina linha que separa realidade e ficção.
A incerteza talvez seja o princípio que nos move como seres carentes de desafios drogados de adrenalina.
E assim vamos pregando, costurando nossas estrelas de purpurina e brocados brilhantes no teto finito de um céu concreto a qual chamamos de “viver”. Até que todo o mistério se dissipe magicamente feito fumaça de nossas infâncias.
Mais Empatia, menos Lacração!
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Gilberto Motta é escritor, jornalista e professor/pesquisador. Nasceu e cresceu até a adolescência num circo teatro dos pais rodando pelo Brasil; estudou e tornou-se mestre e docente de comunicação social. Vive na pequena Guarda do Embaú/SC, de onde escreve suas garrafas de antialgorismos náufragos.