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Ubuntu

Empatia e lacração

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e Foto

“Eu sou porque nós somos.”
(UBUNTU, palavra africana de empatia e amor)

Era do “Já era” e do desgaste.

Empatia virou termo de viralização tão desvalorizado que aparece nas redes das Bigtechs como forma de lacração.

Lacrar, Lacrar, Lacrar até não poder mais!

Vivemos o dia a dia com uma postura despreparada e ansiosa, como se a vida nos devesse a concretização de cada desejo sonhado.

Somos arquitetos de sonhos ancorados em pó de fumaça, nuvens de areia, e, ao mesmo tempo, perambulamos tontos com lanternas toscas à procura de alguma luz.

Estamos sempre descendo a grande onda à espera da queda, da “vaca”, da torre de água salgada que afoga e quebra todos os dias a nossa velha prancha de surfar a vida.

Sonhamos com “cousas concretas”; com o amor e com a paz absolutos, com o sucesso, a saúde plena e muito dinheiro no bolso, como se fosse fácil.

Não é; na verdade, na vida de cada um “não há almoço grátis”.

Entretanto, esquecemos – ou fingimos esquecer -, que a realidade é uma tela turva, um vitral digital a ser estilhaçado em fragmentos de fatos dos quais ficarão apenas as narrativas, as ficções.

O que chamamos de Realidade, não se apresenta como uma foto iluminada, mas como um painel de múltiplas interpretações, onde cada ser animado ou inanimado projeta sonhos e sombras.

Insistimos na óptica bipolar: sucesso/fracasso, brilho/opaco, quente/frio, finito/infinito.

E seguimos… pintores de molduras de isopor, frágeis, leitosas e desbotadas nos esquecendo do todo do quadro, via de regra, pastoso, mistura, de cores indefinidas e repleta de desafios.

Definitivamente, viver não é brincadeira, não!

E A TAL DA EMPATIA?

Pois então, a palavra UBUNTU, de origem africana, tribal, milenar, representa exatamente a Empatia: “Eu sou porque nós somos”.

Todos os dias deixamos de praticá-la na vida real.

E quanto mais alta a árvore, maior o tombo do galho.

O mergulho no abismo é o centro da vertigem real e desumana.

Passados os anos, percebemos segredos que facilitam: sonhar, sim, mas com os pés presos no barro das estradas movediças. Não perder a imaginação, o sonho, porém dominando a fina linha que separa realidade e ficção.

A incerteza talvez seja o princípio que nos move como seres carentes de desafios drogados de adrenalina.

E assim vamos pregando, costurando nossas estrelas de purpurina e brocados brilhantes no teto finito de um céu concreto a qual chamamos de “viver”. Até que todo o mistério se dissipe magicamente feito fumaça de nossas infâncias.

Mais Empatia, menos Lacração!

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Gilberto Motta é escritor, jornalista e professor/pesquisador. Nasceu e cresceu até a adolescência num circo teatro dos pais rodando pelo Brasil; estudou e tornou-se mestre e docente de comunicação social. Vive na pequena Guarda do Embaú/SC, de onde escreve suas garrafas de antialgorismos náufragos.

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